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As mecânicas de Crusader Kings III e o seu contexto histórico

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Ah… a Idade Média! Época de nobres poderosos lutando para se manter no poder no sistema que ficaria conhecido como feudalismo. Se a vida de um camponês não era nada fácil durante esse período, ser um dos privilegiados no topo da sociedade feudal trazia muitos benefícios e uma vida de regalias. Contudo, como diria o Tio Ben, grandes poderes trazem grandes responsabilidades, e figurar entre os peixes grandes também significa colocar um alvo em sua cabeça. Pensando em toda essa dinâmica da Idade Média, Crusader Kings é mais que uma mera franquia de estratégia: é um simulador que retrata com fidelidade os perrengues de ser um nobre durante uma das épocas mais conturbadas da história.

Cobrindo um período que vai de 867 até 1453, é possível entrar na pele de qualquer nobre da Europa (ou de parte da Ásia e da África) a fim de criar um legado e fazer história. Esqueça as mecânicas tradicionais que envolvem conquistar territórios apenas usando a guerra, pois a franquia Crusader Kings é inovadora e, sem possuir um objetivo predefinido, possibilita uma infinidade de estratégias a fim de realizar as suas ambições durante a jogatina. Sabendo disso, pegue a sua espada e a sua armadura, pois esse artigo irá detalhar e contextualizar as melhores mecânicas e peripécias disponíveis na franquia.

Mantendo os negócios na família

O segredo para ter uma linhagem de “campeões da terra” é se casar com as pessoas certas. Pensando no Crusader Kings III e na época medieval, os casamentos são muito mais do que a união entre duas partes: são acordos diplomáticos, garantias de herdeiros e uma maneira de adquirir territórios.

A ideia de casamento arranjado pode parecer abjeta aos olhos da sociedade contemporânea, mas trata-se de uma característica importante da época. Ser um pequeno nobre e conseguir casar um de seus filhos com algum nobre poderoso ou seu parente próximo significa estabelecer uma aliança com o mesmo, onde as duas partes deverão se proteger devido aos laços matrimoniais entre as duas casas. Em um cenário político tão conturbado, ter aliados com um poder bélico considerável pode ser a diferença entre a glória e a infâmia.

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O Tinder medieval está à sua disposição…

Mas não é só de alianças que vive o homem. Mais do que manter aliados capazes de repelir qualquer ameaça em seus domínios, os casamentos servem para gerar herdeiros dignos de receber os títulos e honrar o legado da sua dinastia. Tendo isso em mente, a genética é um fator fundamental a ser levado em conta. Pais com traços congênitos poderão passar essas características para seus filhos, sejam esses traços bons ou ruins. Com um pouco de pesquisa e tempo, é possível gerar herdeiros com a inteligência de Albert Einstein, o físico do Mike Tyson e a beleza do Rodrigo Hilbert.

De nada adianta um bom herdeiro se não há nada para ele governar. Tendo em vista essa questão, os casamentos também podem ajudar na obtenção de territórios e, muitas vezes, sem a necessidade de entrar em conflito direto. Os filhos de um personagem herdam, além dos traços físicos, as reinvindicações de títulos dos pais, mesmos que eles não estejam no trono. Se o seu cônjuge tiver títulos a serem reivindicados, a criança que nascer desse casamento herdará as reinvindicações e estará na linha de sucessão ao trono. Com um pouco de maldade criatividade e assassinatos acidentes trágicos, é possível herdar um título sem utilizar o seu exército e pegar o que é seu por direito.

É necessário frisar que, dependendo da religião dos personagens, os casamentos podem ser feitos entre os membros próximos da família. A primeira vista essa mecânica parece ser bem estranha, mas esse era um hábito comum na nobreza da Idade Média, tendo a Casa de Habsburgo como exemplo mais notório dessa prática. Casar membros da mesma família garante que o poder permanecerá dentro da dinastia, mas isso vem com o preço de, conforme as gerações passam e mais membros da família casam entre si, gerar descendentes com sérios problemas estéticos e de saúde – sim, estou falando de você, Carlos II.

A ciência e os barões do tomismo

Não é novidade que a igreja estava diretamente ligada com a ciência durante a Idade Média. Entretanto, os avanços científicos da época muitas vezes são ignorados devido a essa aproximação, não reconhecendo o crédito dos cientistas medievais que influenciaram bastante no desdobramento do conhecimento moderno. Buscando representar fielmente a época no Crusader Kings, as inovações e avanços tecnológicos estão ligados diretamente à igreja, sendo uma das mecânicas mais engenhosas, interessantes e subestimadas do jogo.

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O aprendizado e as suas mil e uma utilidades.

Influenciado pelas ideias de Aristóteles, São Tomás de Aquino foi um dos grandes mentores da escolástica medieval em vigor na época. Seu objetivo era conciliar os ensinamentos aristotélicos com a fé cristã, utilizando um sistema de pensamento racional tendo o cristianismo como base. Essa fusão, conhecida como tomismo, compõe um dos elementos chaves para entender o sistema de tecnologia e progressão do jogo.

O atributo de aprendizagem (learning) é o que determina a velocidade do avanço tecnológico de um determinado reino. Ele está diretamente ligado a fé pois, ao se iniciar o jogo, é notório que tanto os progressos científicos quanto os religiosos dependem desse mesmo atributo para se desenvolverem. Bispos geralmente terão esse valor alto e dependerão do mesmo para executar as tarefas referentes à disseminação dos ideais religiosos em uma região.

As influências da fé vão além do desenvolvimento tecnológico, pois o cristianismo medieval teve também um grande impacto na medicina da época. O cristianismo ajudou a definir a doença e a cura, partindo da ideia que a religião cristã é a salvação do povo e, por definição, a cura para todos os males. Personagens com um valor de aprendizado alto, sejam eles bispos, curandeiros ou simplesmente intelectuais, poderão se tornar médicos renomados caso sejam apontados para realizar essa função, realizando tratamentos que podem mitigar o avanço de uma doença. Porém, como é de se esperar, os tratamentos sugeridos podem ter o efeito oposto, agravando uma doença mortal e reduzindo consideravelmente o tempo de vida do seu personagem. Não é difícil ver seu médico sugerindo tratamentos que são, digamos, não muito ortodoxos.

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Os avanços tecnológicos estão ligados à cultura, que por sua vez depende do atributo de aprendizado.

Além do cristianismo é necessário reforçar que o islã também teve um papel fundamental na ciência medieval. Absorvendo os escritos de Platão e Aristóteles, os muçulmanos realizaram grandes avanços referentes ao pensamento empírico séculos antes do nascimento de John Locke. Em Crusader Kings os territórios muçulmanos possuem um valor de desenvolvimento grande quando comparados aos domínios cristãos, colocando os mesmos em uma situação de vantagem no início do jogo.

You have my sword…

Todo jogo de estratégia que se preze tem mecânicas de conflito. O Crusader Kings não foge dessa perspectiva, apresentando um sistema um tanto quanto diferente para o padrão do gênero. Conquistar territórios é essencial para a glória de qualquer líder, mas seu custo pode ser bem alto quando se chega às vias de fato.

Todo conflito precisa de um motivo para ser iniciado, também conhecido como Casus Belli. No Crusader Kings os Casus Belli são essenciais para a conquista de um território, existindo uma boa quantidade dos mesmos que permitem o início de uma guerra. Quer conquistar o território vizinho? Então tenha certeza que você tem um bom motivo pra isso, seja essa razão adquirida através de uma herança, contexto histórico, líder religioso ou utilizando métodos de falsificação.

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“Esse território é no débito ou no crédito, Senhor?”

Uma vez com o motivo certo, a guerra irá acontecer apenas para satisfazer o objetivo determinado. Esse é um dos pontos principais dessa mecânica: não é possível obter mais território do que está definido pelo seu Casus Belli. Escolher qual será a melhor justificativa para dominar uma região, tendo em vista os longos períodos de trégua, é determinante para a expansão territorial no longo prazo, e desrespeitar a trégua acarretará em punições de opinião e glória para o seu personagem. A honra e o respeito aos acordos é um elemento fundamental na moral da Idade Média, mesmo que a parte lesada seja alguém de outra religião.

Elementos externos, como o tipo de terreno e a quantidade de suprimentos no local, influenciam bastante em uma batalha, mas não são os únicos fatores determinantes. A qualidade das suas forças armadas é primordial, e ela dependerá da proporção entre tropas especializadas e bons cavaleiros em contraste com as tropas de plebeus obrigadas a servirem no exército. Colocar um nobre bom de briga como cavaleiro pode parecer uma boa ideia, mas é preciso ter em mente que qualquer personagem (incluindo você) pode ser morto dentro do campo de batalha a qualquer momento – até mesmo quando tudo parece ganho. As vidas são dispensáveis na Idade Média, só que algumas mais dispensáveis que as outras

Em suma, a franquia Crusader Kings tenta representar o mundo medieval de uma maneira bem diferente, mas mantendo mecânicas que fazem alusão a algum costume e/ou característica da época. É muito interessante notar como a história pode oferecer contextos que possibilitam a inserção de conceitos diferentes no mundo dos jogos, cabendo aos desenvolvedores buscarem inspiração em acontecimentos passados a fim de utilizar a sua criatividade no processo de design e inserir os mesmos de uma maneira divertida e fiel. Tratando-se de fidelidade histórica, a Paradox Interactive dá uma aula nas outras desenvolvedoras do gênero de estratégia e apresenta soluções divertidas para implementar fatos históricos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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