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Blaxploitation e o descaso de Shaq-Fu: A Legend Reborn

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A vida toda, sempre que alguém falava que as coisas não poderiam piorar, eu respondia para não contar com o acaso, pois tudo pode piorar e Shaq-Fu: A Legend Reborn está aí para provar minha teoria. Foi realmente difícil passar por esse show de horrores enquanto jogava – piadas mal-estruturadas, preconceito escrachado e a total falta de conscientização sobre os assuntos ali satirizados fizeram com que a experiência fosse mais deprimente que divertida.

Utilizando técnicas de humor barato que podem ser comparadas a programas como Casseta e Planeta em seus decadentes anos finais, o jogo de Shaquille O’Neal, que prometia ser uma experiência ao nível de filmes da cultura de Blaxplotation, acabou sendo uma verdadeira bomba de preconceitos velados.

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O caos está instaurado uma vez mais.

Uma verdadeira catástrofe em produção

Quando garoto, joguei o primeiro Shaq-Fu no SNES. O jogo era ruim, mas era uma ideia original para a época – cinco anos antes, o rei do pop já havia lançado Moonwalker para o Mega Drive, então videogames eram um mercado emergente para celebridades e Shaquille O’Neal não queria ficar de fora.

A Legend Reborn, por sua vez, é ruim em todos os aspectos e talvez um dos piores jogos que já joguei em toda a minha vida. Com o projeto tendo início no ano de 2014 e com uma meta de $450 mil dólares atingida no Indiegogo, foi prometido algo totalmente diferente do produto final.

O que recebemos, no final das contas, foi um jogo onde Shaquille O’Neal foi mais uma vez rebaixado a um protagonista de uma verdadeira catástrofe digital. O grande problema foi não aproveitar as bases da cultura do Blaxploitation e da própria cultura afro-americana, tomando um caminho mais fácil que é o de ser o mais genérico possível. No projeto original do Indiegogo, Shaq seria um guerreiro que lutaria contra um clã ninja no melhor estilo Devil May Cry, Double Dragon e Street Fighter, com uma direção artística que remete aos grandes clássicos do choque cultural entre a culturas negra e japonesa.

O trailer consegue passar um ar bem mais sombrio do que o projeto final, remetendo aos quadrinhos originais das Tartarugas Ninja e Double Dragon, prometendo uma experiência única – infelizmente a realidade é outra. O projeto final de Shaq-Fu: A Legend Reborn é um jogo onde os estereótipos e preconceitos velados tem liberdade total. Já conseguimos notar isso logo na primeira fase do jogo, em que presenciamos uma piada muito maldosa sobre a situação na China, onde a condição de vida das pessoas é deplorável devido às grandes marcas que tomam conta do país e submetem a população a condições de trabalho extremamente abusivas e exploratórias.

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Inspirações não faltam: artistas como MF DOOM, Wu-Tang Clan e canais como Adult-Swim.

Em toda piada ou paródia bem feita, há um gancho que reconhece tratar de algo real e que está ocorrendo nesse exato momento, mas Shaq-Fu: A Legend Reborn liga o botão do dane-se e passa por cima de todos os comentários sociais que poderiam ser feitos em prol do enriquecimento dos jogadores. O vilão do nível na China é uma versão cibernética de Donald Trump, que é pilotada por um demônio, e ao derrotar a atrocidade, Shaquille O’Neal simplesmente segue seu caminho ao invés de libertar a população de uma vida servil. Tal ação seria enriquecedora para a história, já que Shaq se tornaria um verdadeiro herói para a população local, que o azucrinava quando garoto por ser “diferente” dos chineses – que, de acordo com os produtores, são todos idênticos e semelhantes ao Doutor Fu Manchu, um antigo estereótipo chinês.

Outro problema começa no mesmo nível: durante a metade do primeiro estágio, vemos um inimigo que age como uma mulher, mas tem o rosto de um homem. Eu realmente acho que já somos evoluídos o suficiente para entendermos que tal abordagem em um jogo é algo de extremo mau-gosto. Esse tipo de personagem retorna durante todo o jogo tendo apenas sua aparência trocada, mas sempre sendo um estereótipo de uma pessoa transexual. O que me deixa de boca aberta é ver os diálogos com tais inimigos, onde os produtores deixam claro que Shaquille O’Neal possui um prazer particular em derrotar esse tipo de “oponente”.

Vivemos em uma época na qual a mídia tenta incluir cada vez mais pessoas das mais diversas identidades no mainstream, e os desenvolvedores provam não possuir qualquer noção de atualidade ou realidade. Com a cultura pop se tornando cada vez mais abrangente, tais personagens poderiam ser melhor aproveitados como aliados ou mesmo como inimigos, mas de uma maneira que tocasse o público de maneira positiva e não como alguém que deve ser derrotado e humilhado.

Fora isso, ainda temos abordagens grosseiras de vícios em bebidas e drogas, locais sob regimes ditatoriais e mulheres sendo reduzidas a demônios com bundas gigantescas que controlam o resto de seus corpos.

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450 mil dólares foram direto pelo ralo.

Mas podia ter sido diferente?

Como mencionado anteriormente, Shaq-Fu é um jogo que não possui um público alvo definido, feito nas coxas para ganhar dinheiro em cima da fama do primeiro game, que já foi lendariamente ruim. Com isso em mente, os desenvolvedores devem ter chegado à conclusão de que, como não há publico alvo, não há risco, e já que o dinheiro veio do pessoal que financiou o jogo pelo Indiegogo, não há importância no final das contas. Mas o que poderia ter sido feito para que tivéssemos um jogo diferente e que poderia ter alcançado o título de um beat ‘em up inesquecível? Bastava ter usado as referências e a cultura afro-americana a seu favor.

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“Are you a warrior killer slicin’ shit like a samurai?”

Como cito em meu review, Shaquille O’Neal pode usar uma armadura que o transforma em Shaq Diesel, alter ego da época em que cantava rap. No que é um de seus mais famosos clipes, usa uma roupa semelhante a um Qipao, uma tradicional vestimenta chinesa utilizada por artistas marciais. Nessa época, um grande movimento surgia embasado na cultura chinesa, e eles também entraram para a história e participam do cenário surgido da amalgama entre rap, hip-hop e cultura oriental: seu nome é Wu-Tang Clan.

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Além da ótima história e animação impecável da Gonzo Studios, Afro Samurai é dublado por ninguém menos do que Samuel L. Jackson.

Tirando seu nome diretamente da montanha de Wudang e considerado um dos maiores grupos de rap de todos os tempos, o Wu-Tang Clan utilizava trechos de filmes de artes-marciais em suas músicas e deu início a uma onda de inspiração para desenhos, filmes, jogos e até mesmo animes. O grupo é o responsável pelo surgimento de cantores como MF DOOM, que se tornou famoso por estar sempre escondendo sua face por trás de uma máscara semelhante à do Doutor Destino (principal inimigo do Quarteto fantástico). Outro grande sucesso inspirado no grupo é o anime Afro Samurai.

Tanto Afro Samurai quanto O Homem com Punhos de Ferro são obras fictícias inspiradas por membros do grupo Wu-Tang: todas se passam em cenários fantásticos onde podemos ver a influência da cultura afro-americana tomando forma no mundo e na própria forma como as histórias são contadas. Afro Samurai se passa em um futuro distópico, e nele o que manda é a força, acompanhada de uma trilha sonora produzida por RZA, um dos principais membros do grupo. O anime de apenas cinco episódios é um grande clássico e inspirou Yaiba: Ninja Gaiden Z, um jogo fraco porém com uma direção estética e musical muito bem trabalhada.

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A série animada Boondocks gira em torno do movimento Blaxploitation e promove conscientização sobre diversos estereótipos e preconceitos.

Fora todos os projetos que surgiram inspirados no grupo, eles mesmo possuem um jogo que foi essencial para o surgimento da série Def Jam, grande sucesso da época do PlayStation 2. No PlayStation 1, o jogo Wu-Tang: Shaolin Style trazia os membros do grupo caracterizados como artistas marciais, também em busca de vingança pela morte de seu mestre. Utilizando a engine do infame Thrill Kill, que nunca veio à tona, o jogo contava com diversos personagens e combates de até 4 lutadores em uma tela, com direito a movimentos especiais e até mesmo fatalities.

Shaq-Fu: A Legend Reborn também é um jogo que, com medo de arriscar, expor e tratar situações que podem gerar ótimos enredos, resolveu ser algo genérico e extremamente pobre em enredo e produção. Um ótimo exemplo de uma obra que consegue ser cômica, fantástica e realista ao mesmo tempo é Boondocks. Originando de pequenas tiras de jornais norte-americanos, a série logo se tornou uma animação de grande sucesso no canal Adult-Swim, tratando de assuntos sobre os estereótipos que a sociedade lança sobre tudo e todos e mostrando diferentes realidades. Outra produção que segue esse mesmo nicho é Black Dynamite, filme protagonizado por Michael Jai White que homenageia o Blaxploitation com pitadas de sátira social.

Em suma, acredito que pelo fato de Shaquille O’Neal não estar realmente compromissado com o projeto e de não haver riscos ou perdas, Shaq-Fu: A Legend Reborn se tornou o pior tipo de besteirol e um insulto a todos, tanto aos jogadores quanto aqueles que são alvos de suas infames tiradas. Ao invés de abrirem os olhos para problemas sérios como vícios, preconceitos e alienação do povo, temas que deveriam ser satirizados sem perder peso, apenas entregam um produto pobre e vergonhoso. Shaq-Fu: A Legend Reborn é um estigma ainda maior que o game original para Shaquille O’Neal, pelo fato de permitir que tais temas sejam tratados de forma tão leviana e velar preconceitos usando a sua imagem – é melhor ser lembrado por apenas um jogo ruim lançado há mais de 20 anos do que por um ultraje como esse.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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