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“Currículo gamer”: você jogou tudo que podia?

Existe uma lista definitiva de tudo que você deveria ter jogado?

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Currículo gamer

Circula pelas redes sociais uma lista que visa avaliar a variedade de títulos que uma pessoa “gamer” jogou ao longo de sua vida. Não é a primeira nem será a última vez em que nosso orgulho (ou ego) é tentado para preencher pontos em um planilha para tentar obter a nota máxima, como se o mundo real tivesse platinas para serem desbloqueadas e fosse subir uma estrelinha com som ou algo assim na hora da conquista, uma expectativa que a maioria de nós deveria ter deixado lá atrás no jardim de infância.

No mundo gamer, esse tipo de julgamento costuma ser constante. Determinados influenciadores inclusive se vangloriam de terem jogado mais do que os outros ou, pior ainda, achacam aqueles que classificam como inferiores pelo volume de horas dedicadas a essa ou aquela plataforma. É insegurança que chama. Como se fosse possível exercer algum tipo de juízo de valor por uma contagem de tempo.

Ultrapassamos a segunda década do século XXI, jogos eletrônicos existem em nossa sociedade por quase cinquenta anos e isso implica em dois fatores que devem ser levados em consideração: primeiro, a mídia já está consolidada, não há motivos para defendê-la com unhas e dentes como se ela fosse desaparecer ou como se nós, “gamers”, fossemos uma minoria marginalizada em vias de extinção, ou como se houvesse uma guerra entre plataformas que precisa ser vencida a qualquer custo. É a indústria cultural que mais fatura no mundo inteiro. É evidente que há espaço para todo tipo de jogador, todo tipo de dispositivo, todo tipo de gênero.

O segundo fator, e esse será o foco principal desse artigo, é que cinquenta anos produziram um acervo cultural imenso, que precisa, de alguma forma, ser curado. Não no sentido de se forjar uma lista elitista e excludente, mas no sentido de orientar gerações sobre os grandes (e baixos) momentos de sua História.

Cadê essa lista gamer?

Ela está aqui, sua origem é indeterminada:

Lista gamer

A quem interessar possa, minha nota é 33/100. Ou seja, joguei, de alguma forma, um terço exato da lista. Isso significa que sou um terço do “gamer” que poderia ser ou inferior a alguém com nota maior? Talvez uma pessoa desqualificada para escrever sobre jogos? Um bom jornalista esportivo precisa ter entrado em campo? Um repórter policial precisa de um distintivo? Já ouviu falar em Argumentum ad hominem?

Desconsiderando o fato de que a lista não está em ordem alfabética, o que me incomoda bastante, é importante destacar também que clássicos como Baldur’s Gate ou Vampire não aparecem na lista. Ou mesmo títulos populares, como Minecraft ou a franquia Kirby. Onde está Ys? Eu não estava esperando que o ancestral Pong fosse lembrado, porém a ausência do seminal Pac-Man é gritante. E, mais uma vez, todo o gênero Battle Royale é ignorado, juntamente com todo e qualquer jogo de dispositivos móveis. Nem mesmo Angry Birds?

Toda lista é um recorte e todo recorte reflete os valores e opiniões de quem a compila. Há um evidente foco em determinados gêneros, de determinadas gerações e plataformas nessa aqui.

Cadê os indies?

Para corrigir pelo menos uma das lacunas da lista anterior, resolvemos entrar na brincadeira e criar outra lista de 100 jogos, desta vez todos produções independentes:

Lista de 100 jogos independentes

Mantive o espírito quase ilegível do original, mas coloquei todos os títulos em ordem alfabética. Se você preferir uma versão interativa e compreensível, o Google Forms utilizado para elaboração da lista está disponível online. Não existem respostas certas ou erradas e, honestamente, não irei fazer qualquer tipo de contabilidade de resultados.

É evidente que essa lista gamer está incompleta. Todas as listas são incompletas por natureza, um recorte. Sinta-se à vontade para reclamar nos comentários ou nas redes sociais. Houve uma tentativa.

Coma mais brócolis

Categorizar o “gamer” com um rótulo unificado é uma atitude tão desprovida de sentido quanto categorizar o “reader”, um termo que sequer existe. O gamer é então aquele que joga, que tem o hábito de desfrutar de jogos eletrônicos, sem restrições de horas contadas, franquias experimentadas ou plataformas. Vai do pro-player de FPS até a dona de casa viciada em títulos casuais em um celular de duas gerações atrás. Somos todos diferentes entre nós e foi essa diversidade que catapultou a indústria para uma posição economicamente viável e a mídia para uma posição que pode ser chamada de Arte, com “A” maiúsculo, quando não se limita a ser um produto.

Portanto, meus 33% me definem. Os seus 33% podem definir um estilo de jogador totalmente oposto ao meu e ainda assim seremos “gamers”. O conjunto de experiências que nos trouxe até aqui nos faz indivíduos com posições e abordagens únicas. E, mesmo que você seja o bichão que gabaritou as duas listas acima, você certamente será diferente de outro jogador nas mesmas condições, porque vocês trazem um acervo cultural fora dos jogos que não é igual, uma vivência que não é igual, um olhar que não é igual.

video game character collage

Além disso, existe um mundo de jogos fora das listas. Não apenas carregamos nossas passagens por títulos essenciais como também carregamos nossas passagens por títulos medianos e medíocres, que também são importantes para a formação do nosso acervo interior. Um jogo ruim e a compreensão do que o torna desagradável para nosso gosto pode ser mais relevante para a forma como nos aproximamos dos jogos eletrônicos do que um GOTY muito similar a tantos outros. Você foi ao Inferno e voltou, parabéns, isso também cria caráter. É o brócolis no prato: você não curte, mas precisa daquelas vitaminas para o seu crescimento.

A conclusão de tudo isso é de que listas não são importantes? Listas não são definitivas. Quando muito são o começo para lembrarmos títulos que outros também lembraram. Podem ser um ponto de partida para quem está chegando agora e deseja escolher sua próxima jornada ou para aqueles veteranos que buscam cobrir lacunas em seu “currículo”, por assim dizer. Entretanto, jamais deveriam ser um fim por si mesmas.

Estamos lidando com meio século de produtos culturais, com milhares de novos jogos sendo acrescentados todos os anos. Alguns passarão batidos, alguns serão marcantes, alguns serão fundamentais para a formação do seu gosto, outros produzirão defesas no seu organismo contra jogos futuros. O aprendizado é contínuo e não cabe em lista alguma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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