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Devolver Bootleg é só uma piada?

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É difícil encontrar algum marmanjo de 40 anos que nunca tenha jogado “Sonic 4” para Super Nintendo ou um “Street Fighter II Pro” de Nintendinho. Para além de cartuchos pirateados, proliferavam nos 80/90 jogos piratoscos, sem lenço e sem documento, que se aventuravam em trazer para consoles diferentes os títulos mais famosos de arcades ou de outros consoles.

Eram os bootlegs, ROMs ilícitas “inovadoras” com uma releitura dos clássicos que faziam a alegria da molecada que não tinha console e jogo originais. Em geral, os autores apenas trocavam sprites de jogos oficiais por outras para poder mudar o título (Sonic 4 era baseado no jogo oficial do Ligeirinho, Speedy Gonzales: Los Gatos Bandidos, por exemplo), mas outras vezes criavam jogos quase do zero – alguns até bem aclamados!

Eis que em pleno 2019 ouvimos a palavra “Bootleg” em uma apresentação oficial do maior “show” de videogames da indústria. Pois, uma das publishers da “cena” estaria apresentando (e vendendo) bootlegs de seus próprios jogos… “Available Now”! Aposto que muitos de vocês – assim como eu – deram um pause na apresentação e correram para ver se aquilo realmente estava rolando no Steam ou era zuera. Mano…

Tinha que ser a Devolver Digital, esse amor em forma de publisher perita em fazer piada de tudo que é coisa nesse cenário gamer (inclusive tirar sarro de si mesma). As versões adaptadas de 8 de seus jogos exalam um feeling 8 bit, presente nos sprites e tiles simplificados, na jogabilidade com apenas 2 botões de ação e na referência à outros jogos dessa era clássica. Mas a ideia não é necessariamente usar o raio nostalgizador completo. Os jogos têm também um feel “Game Jam”, mais “Game Maker”, sem muitos truques e filtros que procurem imitar o estilo do Nintendinho/Master System.

Piadas por tudo que é lado

Para além da própria existência de um “Devolver Bootleg”, mais piadas se espalham por todos os lados, a começar pelo preço do jogo na loja, que aparece com um desconto de 1% como uma forma ridícula de burlar o sistema do Steam e aparecer entre as promoções. Tem piada até na tela de ativação do jogo após a compra, em que ao invés de aparecer o nome do produto, aparece esta mensagem:

Screen Shot 2019 06 13 at 09.26.55
“Bootleg for Beta Testing”, mas escrito como que contendo um erro de leitura/exibição de código (que deveria traduzir “ ” por “espaço”).

Fora isso, o menu de launcher faz referência a uma bios das antiga, com muitos loading de recursos sem sentido. O nome do programa é “Bootleg.exe”, como se fosse um executável suspeito e que estampa “0.9.9” como número de versão, um eterno beta. O jogo ainda te obriga a diminuir a resolução de seu display manualmente caso queira jogar em fullscreen, pois não oferece nenhum ajuste de gráficos.

Outro espaço de piadas são as conquistas do jogo, em geral ativadas por feitos muito simples como “abrir o menu”. A primeira conquista que desbloqueamos possui um ícone de moedinhas e se chama “Hahahahahahahaha”(um “ha” pra cada jogo), ativada por termos comprado o Devolver Bootleg – ecoando uma piada da própria apresentação da E3 (“Alguém vai pagar por isso?”).

Captura de Tela 45
Olha essas conquista loca, mano!

Os jogos não são uma piada completa

  • Enter the Gun Dungeon

    Um roguelite simples, com botões de atirar e dash (uma das marcas do título original). Aqui você entra em salas – aparentemente geradas proceduralmente – enfrentando inimigos com design de balas e, quando mata o último, mais quatro portas se abrem e dão acesso à outras novas salas com mais inimigos ainda. Se você escolher voltar pela porta que entrou, encontrará uma nova sala totalmente diferente. Nelas também há upgrades para as armas. É como se trasformassem o Enter the Gungeon em um Bind of Isaac infinito e absolutamente simplificado – mas com uma mecânica de dash e pelo qual você concorre por seu nome no placar da fama.

  • Hotline Milwaukee

    Milwaukee é uma cidade do norte dos EUA, mas não entendi a referência. Usa a mesma estrutura de Hotline Miami, câmera superior, entrar em quartos e matar inimigos. Um botão atira, o outro joga a arma. Você escolhe uma de quatro máscaras disponíveis antes de entrar no jogo, mas elas não alteram o estilo. Não tem mecânica de usar portas como arma, não se usa dois analógicos para andar e mirar, é lento, é tosco, é uma zoeira completa com direito a diálogos zoados no telefone. Minhas gargalhadas vão para as trilhas sonoras que nitidamente evocam as originais, tentando se aproximar delas com uma biblioteca de sons que não ajuda, deixando-as completamente ridículas. E cara, aqui os cachorros “pegam” armas. E atiram.

  • Ape Out Jr.

    Talvez o melhor do pacote, uma releitura de Ape Out em forma de puzzle plataforma 2D que nos lembra Donkey Kong Jr. desde o título. São 24 estágios com hominhos que atiram contra o macaco (como o do jogo original, incluindo os homens com lança-chamas) e você só precisa agarrá-los e atirá-los uns contra os outros. Tem até a mecânica de escudo humano. Além de descobrir como escalar até o elevador de cada estágio, há o desafio extra de fazer isso matando todos os inimigos e pegando todas as bananas da fase – espaço aberto para um level design bem interessante.
    Repare que o inimigo sendo arremessado rotaciona da mesma forma que o Mario em DK Jr. 🙂

Captura de Tela 38
Os bonequinho são atirados girando, girando…
  • Shootyboots

    Em Shootyboots – como o nome já diz – você controla botas atiradoras, numa fase única de scrolldown gerada proceduralmente em que você tem que matar criaturas com padrões de movimento diferentes, atirando ou caindo sobre elas. Ao morrer, os inimigos soltam diamantes que podem ser trocados por upgrades que aparecem aleatoriamente. Impressionante como quase todos os elementos de Downwell estão aqui, mas ao mesmo tempo nenhum deles. A principal piada é o controle, que te obriga a segurar o botão para poder pegar impulso de pulo caso você queira se mover para a esquerda e para a direita – o que é extremamente mal-vindo em um scrolldown.

  • Luftrousers 3

    A descrição do jogo na página da loja apresenta um bilhete de Rami Ismail dizendo que seu companheiro de Vlambeer (Jan Willem) esqueceu um pendrive em um café contendo uma versão zuada de Luftrausers, pedindo encarecidamente que devolvam e nunca publiquem “junto com outras versões ilícitas de jogos da Devolver”. Haha.

    As cores e a recuperação de energia quando paramos de atirar são semelhantes às de Luftrausers, mas a mecânica geral é bem diferente. A zuera aqui foi eliminar o controle diferenciado do original e te dar um avião de controle “padrão”, com upgrades comuns a vários jogos de navinha (com direito a BOT que circunda a nave e bomba para destruir todos os inimigos da tela). O jogo fica ridiculamente fácil e não consegui entender se ele tem fim: mesmo bem depois de conseguir comprar todos os upgrades, ele não pára de gerar waves (todas com desafio idêntico). Cheguei na décima quinta, mesmo depois de ter todos os upgrades por volta da sétima. Acumulei tanta moeda que o contador invadia a área de outros contadores da HUD.

  • Super Absolver Mini Fighting Championship

    Joguinho de luta bem parecido com Karate Champ e/ou outros jogos de luta de NES misturados. Para economizar código com I.A., é um jogo unicamente versus de dois, local. O Absolver original é referenciado aqui apenas na escolha de “escolas de luta” antes da partida – cada jogador escolhe duas, uma para cada botão de ação, que lhe dá direito unicamente a dois especiais diferentes ao se apertar o direcional para baixo e o botão escolhido.

  • Captura de Tela 42
    Especial em forma de “hóliudi”. E acho que aproveitaram esta mesmíssima montanha em outro jogo deste pacote.
  • Cat Game (nome que aparece no menu) ou Catsylvania

    Bootleg do Gato Roboto, jogo da Doinksoft responsável por todo o Devolver Bootleg. Mistureba de Ghosts’n Goblins com Castlevania em que o personagem é um gato comandando uma armadura de um homem sarado. Com a típica jogabilidade que tira por um segundo seu controle sobre o personagem depois de cada ação (o que pode ser fatal), bem como o backstab que pode te jogar em um abismo, o level design do pequeno e único level (que dura entre 10 e 15 minutos) está bem cuidado e apresenta um desafio clássico nesse tipo de jogo. É o número dois da minha lista aqui.

  • Pikubiku Ball-Stars

    Mais um contra de dois sem I.A. Guarda do Pikuniku apenas os personagens e o controle difícil, colocando você e seu oponente para tentarem acertar três vezes uma melancia em uma cesta de basquete. Típico jogo em que você mais briga contra os controles do que qualquer outra coisa. Ah, e você também escolhe o chapéu da sua personagem, entre diferentes tipos; sabe como é, um pouco de personalização de personagem. Acho que é o pior de todos os jogos deste pacote.

  • O que pensar de tudo isso?

    Com essa brincadeira toda, a Devolver consegue comunicar seus valores como empresa diferenciada, que sempre pretendeu vender uma imagem de “marginal” e “rebelde” em relação à uma indústria super careta. As piadas propostas tocam todos os âmbitos da indústria de jogos: plataforma de distribuição, preço, pirataria, propriedade intelectual, nostalgia, abusos corporativos sobre os funcionários, marketing. Assim, todas são piadas de referência, destinada a um público que conheça minimamente alguns aspectos desta indústria: você só vai conseguir ver as piadas se fizer parte deste seleto grupo cultural. Ao entender as ironias sentirá com mais firmeza este laço que te une aos valores da Devolver. O Devolver Bootleg é forma bastante inovadora de marketing e em que ele mesmo é o produto.

    É interessante analisar ainda, que a existência de um bootleg no mercado carrega de valor o jogo original, no sentido de gerar importância e aumentar o seu lore. Na comparação inevitável entre jogar a versão bootleg e o jogo original, dá pra refletir sobre cada um dos elementos de design que fazem o original ser o que é, destacando seus melhores atributos. Fico pensando o porquê da escolha desses oito títulos específicos e se a Devolver pretende trazer mais em forma de DLC ou de um Bootleg 2. Dá realmente vontade de ter um bootleg para cada um dos jogos produzidos/distribuídos por esta linda…

    O ponto é que agora a Devolver tem um cofrinho de gorjetas. Uma das maiores piadas dessa história toda é que um bootleg é geralmente direcionado a quem não pode ter acesso aos jogos originais, enquanto que a maioria destes jogos da Devolver podem rodar tranquilamente numa máquina que rode o pacote aqui. Além disso, o preço dos originais não é muito maior que o preço destes “piratas originais”. De qualquer forma, tenho certeza que muitos fãs comprarão tudo como forma de gratidão a essa linda publisher, por todos os games que ela tem ajudado a colocar no mercado há um tempo. Devolver Bootleg é o melhor “brinde” que um fã destes jogos poderia ter.

    PS.1: Por que o DB só saiu como um exclusivo de Windows e Steam? Para além da piada do executável “exe”, o que impediria deles terem criado no mínimo uma versão para Mac ou vendê-lo na GOG, por exemplo?

    PS.2: Perceberam como o tema “sapo” permeia em mais de um jogo e há duas conquistas que envolvem este animal?

    PS.3 juntando o PS1 e o PS2: Será que há mais segredos escondidos nesta brincadeira toda?

    ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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