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Freakview #1: Névoas tomam forma pela mente de um rei em Silent Hill

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O nome daquela cidade é Silent Hill. Muitos a conhecem por suas belas paisagens ou pelo marcante parque às margens do lago Toluka, mas não se engane. Aquele solo é amaldiçoado, seus antigos habitantes foram expulsos, execuções foram conduzidas, uma peste se alastrou pela terra e agora uma pesada névoa encobre a cidade borrando a linha entre realidade e “sonhos” para seus visitantes. Muitos dizem que a névoa traz vida a coisas profanas, portanto aqui iremos iluminar os mistérios.

O medo é o instinto mais básico do ser humano, remetendo a atitudes e comportamentos animalescos. Nossos pelos se ouriçam, os batimentos disparam, o suor frio escorre e sentimos nosso coração despencar. Com o advento dos videogames muitos grandes títulos abriram caminhos, tais como Alone in the Dark, I Have no Mouth and I Must Scream, Sweet House etc. Porém a Capcom marcou história com Resident Evil e, para não ficar atrás, a Konami resolveu trazer seu próprio universo de pavor aos consoles. Nesta série intitulada Freakview, irei guia-los pelos escuros labirintos e corredores que passam despercebidos nos jogos de terror.

Nesse episódio, desbravemos as névoas de Silent Hill.

A cidade lhe receberá de braços aberto e irá mante-lo aqui

Silent Hill foi um projeto diferente para sua época, em que a maioria dos personagens possuía alguma habilidade que os tornava especiais de alguma maneira ou eram soldados altamente treinados. Silent Hill sempre nos apresentou protagonistas que são os personagens mais fracos da história. Para entender o que realmente ocorre na cidade é necessário entender onde a parte religiosa age e onde a cidade toma conta. Ou seja, iremos examinar os quatro primeiros jogos da franquia, os projetos da Team Silent e o que seria o início da série. O primeiro jogo é fortemente enraizado nos trabalhos de Stephen King, tais como Carrie, O Nevoeiro e O Iluminado.

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Harry não vai parar até encontrar sua filha.

Nosso protagonista é Harold “Harry” Mason, um escritor que perdeu sua esposa quatro anos antes em relação aos eventos do primeiro jogo da série. Harry é o pai adotivo de Cheryl, uma criança que ele e sua esposa encontraram na beira da estrada de Silent Hill. Durante a viagem de férias, pai e filha atravessam as escuras estradas até que a policial Cybil surge e acena para Harry. Momentos antes de Harry se acidentar, vemos a moto da oficial na estrada. Silent Hill clama pelo fim de um ciclo. Aqui a cidade age apenas como um palco para os acontecimentos e não como uma entidade, como em Silent Hill 2 e outros jogos futuros.

Para entendermos o que se passa na cidade, temos de voltar a 1600, quando os colonizadores tomaram as terras indígenas e fundaram Silent Hill. Os nativos nomearam aquela terra de Local dos Espíritos Silenciosos. Um século após a colonização do local, uma epidemia varreu a colônia, que foi abandonada. Porém, em 1789, a cidade foi repopulada e transformada em uma cidade carcerária, recebendo assim a prisão de Silent Hill e o Hospital de Brookheaven para lidar com a epidemia que ainda rondava o local.

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Está é uma parede que eu posso ficar sem participar sem problema algum.

Em 1840, a cadeia encerra sua atividades e o centro histórico e construído sobre ela, a epidemia ainda clama vitimas e muitos dizem que a doença foi causada pelas diversas mortes no local e pelos poderes que ali existiam. Com a descoberta da mina de carvão, a cidade tentou mais uma vez se reinventar e um campo para prisioneiros da Guerra Civil americana foi construído no lago Toluka, que mais tarde se tornaria a Prisão Toluka. Com a entrada de 1900, os primeiros desaparecimentos começam a ocorrer, o lago Toluka começa a expelir uma névoa e a cidade se torna um ponto turístico, porém a névoa do lago, os misteriosos acidentes aquáticos, relatos de criaturas e a misteriosa morte do prefeito da cidade e de uma equipe de desenvolvimento urbano aumentam ainda mais as especulações de que algo sombrio existe em Silent Hill.

Aqui entra a discussão se levamos em conta ou não os eventos contados em Silent Hill: Origins, o que pode ser posto para debate em um artigo futuro, mas por hora iremos desconsiderar o jogo e pegar o fato principal. Há um culto operante em Silent Hill, que deseja trazer o demônio Samael de volta ao mundo, já que acreditam que o mesmo iria trazer “Paraíso” a terra. Aos 7 anos, a garota Alessa Gillespie, filha de Dahlia Gillespie, líder desse culto, é vitima de uma terrível tragédia. Através de um ritual,Alessa teve seu corpo incendiado, o demônio se alojou em seu corpo. Entretanto, felizmente, antes de finalizar o ritual, Alessa dividiu sua alma em duas partes. Ou seja, o ritual teve de ser interrompido até que ambas as partes se unissem novamente e é este o motivo pelo qual Cheryl foi atraída para a cidade.

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O poder de Alessa foi o pontapé inicial para os acontecimentos malditos da cidade.

Silent Hill sempre buscou desde o inicio trazer um terror mais íntimo e isolado em relação aos concorrentes. Mesmo com criaturas horrendas, seu foco foi desde o inicio o medo, ao invés de sustos. Enquanto Resident Evil utilizava seus cães e zumbis quebrando janelas, Silent Hill apostou no silêncio e oclusão das névoas. Claro que, hoje em dia, um roteiro de jogo desse pode parecer nada assustador, afinal de contas vivemos em uma sociedade menos sensível a demônios, monstros e rituais malignos do que antigamente, mas ainda assim Silent Hill continua se mostrando um incrível sobrevivente.

Está escrito nas paredes

Silent Hill é a amalgama de grandes obras do rei do terror Stephen King, tirando forte inspirações dos clássicos escritos por ele, e o próprio jogo aponta suas inspirações. Começando pela localização de Silent Hill. O “Livro das memórias perdidas”, material oficial da Konami, cita que a cidade de Silent Hill se localiza em New England e a própria casa Gillespie, baseada na pintura “O Mundo de Cristina”, de Andrew Wyeth, na residência Olson, localizada em Maine. Ou seja podemos triangular a localização fictícia de Silent Hill em Maine, diferente do que muitos acreditam, que a cidade seja baseada inteiramente em Centralia, na Pensilvania.

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Apertem o cinto, hora de engrenar a quinta marcha!

Desta forma, o primeiro jogo da franquia tem como fundamento três grandes histórias de King: O Iluminado, Carrie: A Estranha e O Nevoeiro. Carrie e O Nevoeiro são histórias que também ocorrem em Maine (diferentemente de O Iluminado em que o Hotel Overlook se localiza no estado do Colorado). Cada livro possui sua importância e peculiaridade para a criação do universo de Silent Hill. Claro que ainda existem os easter eggs, como a escola do jogo, ser uma réplica exata da escola do filme Um Tira no Jardim de infância, ou a sutil referência a Pulp Fiction.

O primeiro fragmento dessa análise, se concentra no livro O Iluminado. Tanto a cidade de Silent Hill quanto o Hotel Overlook foram construídos em solos indígenas sagrados. Os nativos temiam o local pelas suas características paranormais e essa é apenas uma das relações entre as obras.

Tanto Harry quanto Jack Torrance – interpretado por Jack Nicholson no cinema – são escritores que, por algum motivo, são atraídos a estes lugares por conta de família e/ou trabalho e ambos são sugados em uma espiral catastrófica pelas energias malignas dos locais. O caso de Harry é algo bem mais abrupto, tendo em vista que ele interage com criaturas deformadas e profanas, porém ambos os protagonistas experienciam em primeira mão acontecimentos passados nos locais, através de espíritos e aparições. Tanto Cheryl quanto o garoto Danny possuem algum tipo de ligação extrassensorial com a energia e as sombras dos locais.

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Muito da musica tema de Silent Hill: Shattered Memories pode ser ligado a O Iluminado também.

O segundo segredo chave do primeiro jogo e da série em si se encontra em volta de um nevoeiro, ou, para ser mais exato, em O Nevoeiro, conto escrito em 1980 por Stephen King. Após a corrupção da energia de Silent Hill pelos inúmeros assassinatos, sejam de sacrifícios, indígenas, colonizadores, ou dos prisioneiros da desumana penitenciária que ali existiu, a cidade começou a ser envolta por um grosso nevoeiro que raramente se dissipa. Dentro deste nevoeiro, os pecados, medos e aflições das pessoas, da humanidade e dos planos metafísicos tomam forma e vida.

A inspiração de cenário não é a unica pista presente da influência da história na equipe Team Silent. No conto, que coincidentemente se passa em Maine, um denso nevoeiro toma conta da cidade, trazendo criaturas bizarras e dispostas a matar os habitantes e qualquer coisa que surja em seu caminho. Tanto no jogo quanto no livro e filme, a neblina é anunciada por uma forte sirene, o que no jogo significa a transição dos mundos e a primeira criatura a surgir em ambas as obras é uma criatura alada, semelhante a um pássaro ou pterossauro.

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Vem tranquilo.

A terceira e maior conexão com o escritor vem de Carrie: A Estranha. Para entendermos esta análise, temos de conhecer a obra primeiramente. No livro escrito por King, Carrie é uma garota introvertida e ostracizada socialmente em sua escola por ser considerada diferente, o que resulta na mesma ganhando habilidades paranormais como telecinesia, telepatia e projeção de ilusões. Em casa, sua mãe, Margaret White, uma mulher devota de maneira fervorosa a Deus, abusa e atormenta a filha, com maus tratos físicos e psicológicos, condenando Carrie à perdição do Inferno caso a desobedeça e a espancando com uma vara de aço.

Alessa segue um caso parecido: a garota era constantemente molestada pelas outras crianças durante a infância, sendo chamada de bruxa – coisa que descobrimos na escola de Silent Hill –  e, após ter seu corpo queimado durante o ritual para concepção de Samael, a mesma usou as novas habilidades adquiridas para dividir sua alma em duas e corromper a energia do local. Sua mãe Dahlia Gillespe incendiou sua casa e outras seis casas em nome de sua fé, a fim de que sua filha absorvesse a energia paranormal do local.

O laço que envolve a redenção de ambas as garotas também é o mesmo. Carrie transfere sua alma para o feto sendo gestado no corpo de Sue, já que por telepatia descobre que ela jamais desejou seu mal. Já Alessa, após ter se unido novamente a Cheryl e ter dado a luz a um Samael incompleto, se torna uma terceira criança, Heather, que fica sob os cuidados de Harry e que viria a ser a protagonista de Silent Hill 3.

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O simbolo de Metraton ainda irá retornar diversas vezes durante a série.

Outras semelhanças menores com a obra do escritor podem ser notadas nos posteres que Stephen King fez durante a faculdade, com os dizeres “Study Dammit” encontrados no Café 5o2, próximos a uma máquina de Pinball temática do filme “A Colheita Maldita” (adaptação de um conto de King) e a Rua Bachman, pseudônimo utilizado pelo escritor em outros títulos como Running Man. Outra conversa entre obras é que, em umas da garagens da cidade, podemos encontrar a palavra “RedRuM” escrita, marca inesquecível de O Iluminado.

Silent Hill é o primeiro passo para aquele que seria – em minha opinião – o pináculo das experiências de terror nos games, com sua temática aterrorizante de colocar os erros do protagonista em xeque para julga-lo, tornando assim a experiência em algo divisor de águas. Claro que esse não é o caso ainda com o primeiro jogo, mas foi o pontapé inicial para um dos tesouros clássicos do horror e que abriu muitas portas para o que conhecemos hoje em dia como jogos de terror.

No próximo texto irei falar de Silent Hill 2, o mais influente da franquia e também o jogo com mais interpretações e inspirações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Luís Fajardo
Luís Fajardo
3 anos atrás

Ótimo texto! Até hoje não encarei esse game, apenas a primeira hora. Citar as referências de Stephen King me fez lembrar muito de Alan Wake

Darley Santos
Darley Santos
2 anos atrás

Legal, seu texto traz uma boa compilação de referências a obras de Stephen King presentes em Silent Hill, e você mostrou como elas estão patentes no jogo: podemos ver paralelo entre o game e o livro/filme “O Iluminado” na semelhança dos protagonistas, a relação com os eventos sobrenaturais, a sensibilidade mediúnica das personagens infantis; a alusão à obra “O Nevoeiro”, quando reparamos na presença da névoa e as criaturas presentes dentro dela, e o fator do fanatismo religioso; “Carrie A Estranha”, na relação de mãe e filha num contexto religioso opressor e fanático. Legal também a informação acerca do enredo em si, visto que muita gente carece do conhecimento mínimo do idioma inglês para entender plenamente o background, com todos aqueles arquivos para ler e interpretar. Mas devo dizer que, em todos os jogos da franquia, a cidade Silent Hill é palco e personagem ao mesmo tempo, rsrsrs!

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