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Fato: Por que o Last Dance é uma boa ideia?

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Foto: HLTV

Há exatamente 3 meses da publicação desse artigo, no dia 18 de fevereiro de 2022, a Imperial Esports, após muita especulação, anunciava a criação de uma nova equipe de CS:GO. Contudo, o anúncio não causaria uma repercussão gigantesca se essa fosse apenas mais uma equipe de jogadores brasileiros. Fernando “fer” Alvarenga, Lincoln “fnx” Lau e Gabriel “FalleN” Toledo, bicampeões do Major de CS:GO – o campeonato mais importante do jogo –, se juntaram a Ricardo “boltz” Prass e Vinícius “VINI” Figueiredo para compor o que ficaria conhecido como “Last Dance”.

Logo após o anúncio, inúmeras críticas por parte de sites especializados e da própria comunidade do jogo surgiram. Trata-se de um projeto que visa uma última sequência de campeonatos competitivos por parte do trio de veteranos – mais notoriamente FalleN, maior nome do Counter-Strike nacional e que, recentemente, teve uma passagem pela Team Liquid, composta por jogadores norte-americanos. 

Se o projeto conta com nomes de peso do cenário nacional, então qual o motivo de tanta desconfiança? Os pontos levantados pelos especialistas e pela comunidade incluem a média de idade dos jogadores, a ociosidade de alguns veteranos no período pós SK/MIBR e outras reuniões de times lendários que, infelizmente, não conseguiram repetir o sucesso de outrora. Apesar das críticas, o projeto liderado por FalleN vem colhendo resultados positivos, como a classificação para a IEM Dallas e uma respeitosa campanha no PGL Major Antuérpia, colocando 720 mil espectadores na Twitch e batendo o recorde nacional da plataforma. 

Qual a razão do sucesso? Por que, apesar de todos os motivos citados, os veteranos ainda conseguem competir com os talentos da nova geração? Os motivos são vários, e, a essa altura, já é possível cravar que o projeto Last Dance, ao contrário do que alguns imaginavam, é sim uma excelente ideia.

O começo tardio e o CS:GO

Para começar a entender o sucesso da Imperial, é necessário olhar para o passado, onde o Counter Strike: Global Offensive ainda não estava consolidado como o sucessor do Counter Strike 1.6. Com as Lan Houses desaparecendo e o posterior lançamento de jogos mais modernos, o popular CS 1.6 foi, lentamente, perdendo espaço no cenário competitivo. Nos estágios finais da versão 1.6, FalleN foi uma das grandes promessas do cenário brasileiro, sendo comparado a lendas como Raphael “Cogu” Camargo, campeão mundial na ESWC 2006 e maior jogador brasileiro da categoria, e, a nível internacional, Yegor “markeloff” Markelov.

Por ter pego o final de uma era, FalleN não obteve o destaque internacional de outros ídolos brasileiros do CS 1.6, mas, mesmo sem campeonatos mundiais, sua habilidade com a AWP era amplamente reconhecida. Em 2012, por exemplo, FalleN fazia parte do time da Brasil Gaming, que, além de contar com a presença de fnx, estava acompanhado de nomes de peso como Bruno “bit” Fukuda, Thiago “btt” Monteiro e Eduardo “shemp” Ferreira. A Brasil Gaming era considerada uma das equipes mais fortes do cenário, mas não conseguiu se qualificar para a DreamHack do mesmo ano após perder para a swecon nas etapas classificatórias.

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FalleN ao lado de Renato “nak” Nakano, em 2009.

Por volta de 2013, sem opções para jogar Counter-Strike, FalleN se aventura por outros jogos FPS, como o Assault Fire e o Crossfire, obtendo alguns resultados expressivos – como a conquista da vaga para a CFStars de 2014.

Paralelamente a essa aventura por outros títulos, o Counter-Strike: Global Offensive fora lançado em 2012. Na época, muitos jogadores de CS 1.6 não enxergavam com bons olhos a versão mais atualizada do FPS, incluindo o próprio FalleN, que preferia a versão antiga.

“Eu lembro que no começo da transição do CS 1.6 para o CS:GO eu era tão fissurado no CS 1.6 que eu odiava o CS:GO. Eu não tinha noção que aquilo estava salvando a minha vida. (…) Os caras em vez de arrumar o 1.6 me aparecem com esse negócio horrível.”

Fallen durante o episódio 466 do flow podcast.

O fato é que as constantes atualizações da Valve tornaram o jogo viável competitivamente. Com o tempo, o cenário brasileiro de CS:GO ganhava forma, com FalleN tomando a frente e liderando times fortes no contexto nacional, mas que ainda não tinham se provado internacionalmente. 

O cartão de visitas de um desconhecido

A fim de competir a ESWC de 2014, FalleN, fer e boltz – personagens que, hoje, fazem parte da Imperial Esports – se juntaram a Lucas “steel” Lopes e Caio “zqk” Fonseca, formando a KaBuM.TD e partindo rumo à primeira experiência internacional do CS:GO brasileiro. Apesar de terem ficado em último lugar no campeonato, o time conseguiu arrancar uma vitória sobre a Platinium-Servers, equipe da casa, na Dust II.

Ainda em 2014, a oportunidade que mudaria para sempre o CS:GO brasileiro apareceria diante da equipe da KaBuM.TD. Após ganhar a etapa classificatória nacional, os brasileiros estavam habilitados para competir na MLG X Games Aspen, nos Estados Unidos. Nesse torneio, as equipes europeias da Fnatic – que, no momento, era o melhor time do mundo –, da Ninjas in Pyjamas, do Team Dignitas e da LDLC enfrentavam as melhores equipes norte-americanas, representadas pela Cloud9, Team Liquid e Counter Logic Gaming. A KaBuM.TD era a única equipe fora do eixo Europa/Estados Unidos, e apenas a comunidade brasileira sabia do potencial dos jogadores.

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KaBuM.TD durante a MLG X Games Aspen, em 2015.

Contra todos prognósticos, o primeiro jogo do time de FalleN, fer, boltz, steel e zqk entraria para a história. Os brasileiros enfrentaram a Cloud9, equipe que tinha jogadores como Jordan “n0thing” Gilbert – um dos maiores jogadores americanos de CS 1.6 – e Michael “shroud” Grzesiek – a maior promessa norte-americanas da época. Na Mirage, a KaBuM.TD deu poucas chances ao rival, ganhando pelo elástico placar de 16 a 4. As execuções perfeitamente coordenadas durante o lado terrorista deixaram os espectadores e os analistas surpresos com o nível de Counter-Strike praticado pelos 5 jogadores. 

Uma semana após o evento, os brasileiros, ainda em solo americano, participaram da Clutch Con 2015, que contava com os mesmos times norte-americanos que competiram no torneio anterior, outros times norte-americanos de menor expressão e a Fnatic. As vitórias sobre os times da Denial e da eLevate levaram a KaBuM.TD à fase mata-mata, onde eles enfrentariam os melhores do mundo: a Fnatic. Mais uma vez na Mirage, os brasileiros conseguiram ganhar um mapa contra o time que contava com Robin “flusha” Rönnquist – segundo melhor jogador do mundo em 2014 –, Olof “olofmeister” Kajbjer – melhor jogador do mundo em 2015 –, Freddy “KRIMZ” Johansson, Jesper “JW” Wecksell e Markus “pronax” Wallsten. Nesse momento, ficou claro que a partida contra Cloud9 não era um golpe de sorte, e a equipe idealizada por FalleN recebera finalmente o reconhecimento merecido.

Um time moldado na dificuldade

Fora todo o processo de colocar o Brasil – uma região que, apesar de contar com jogadores reconhecidos internacionalmente no passado, não tinha a atenção devida– no mapa do CS:GO, a história de FalleN e companhia não pararia por isso. A repercussão dos resultados obtidos nos Estados Unidos chegou na ESL, que seria responsável pelo próximo Major em Katowice, na Polônia. Os brasileiros foram, então, convidados a disputar o qualificatório para o Major, algo inédito para o Brasil. 

Entretanto, o dinheiro disponibilizado pela organização brasileira não cobria uma possível viagem à Polônia. Mesmo com a chance de ouro em mãos, a KaBuM.TD seria obrigada a recusar a vaga caso não conseguissem a quantia necessária para as passagens dos jogadores. Como o próprio fer relata em uma entrevista para o programa “Por Trás do Pano”, os jogadores pensaram em desistir e voltar para o Brasil, mas fer insistiu que, caso eles jogassem a vaga fora, ele não continuaria jogando Counter-Strike.

“Então eu falei: se não é para a gente arriscar agora, em um qualify de Major, então eu estou voltando para casa. Eu não jogo isso aqui nunca mais. (…) Aproveita e procura um quinto jogador, porque isso não faz sentido para mim.”

FER DURANTE UMA ENTREVISTA PARA O PROGRAMA POR TRÁS DO PANO.

Sem dinheiro nos Estados Unidos, a equipe fora sensibilizada pelas palavras de fer, optando por arriscar e buscar o sonho. Os jogadores conseguiram estadia na Lan House responsável pela Clutch Con, em Denver, transmitindo os treinos com os times americanos na Twitch a fim de juntar dinheiro através de doações. A história dos brasileiros mobilizou até mesmo a comunidade internacional, onde flusha, o jogador da Fnatic que há pouco tempo havia perdido um mapa para a KaBuM, doou um total de 1400 dólares para a viagem. Em pouco tempo, a meta foi atingida e os jogadores conseguiram desembarcar na Europa.

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KaBuM.TD após a classificação para a ESL One.

Uma vez dentro da etapa classificatória, a KaBuM.TD perdeu a partida de estreia para a mousesports, mas venceu as duas seguintes contra a INSHOCK e a Team Dignitas, garantindo a vaga e colocando pela primeira vez uma equipe sul-americana no Major. Já dentro da competição, agora com o nome de Keyd Stars, eles continuaram a fazer história, batendo a Hellraisers e a Counter Logic Gaming na fase de grupos e, assim, carimbando a presença nos playoffs e no próximo Major. 

Por que confiar no The Last Dance?

Imortalizada pelo streamer e ex-jogador Alexandre “gaules” Chiqueta, a palavra resiliência define a trajetória de FalleN, fer e boltz durante os estágios iniciais do CS:GO brasileiro. Os três veteranos são peças fundamentais para que hoje, 7 anos após encantar o mundo por ganharem partidas improváveis, uma geração de novos jogadores tenha a possibilidade de competir contra os melhores. Posteriormente, com a adição de Marcelo “coldzera” David, Epitácio “taco” de Melo e o retorno de fnx, o Brasil, sob o nome de Luminosity Gaming e SK Gaming, conquistaria o mundo duas vezes, mas o caminho trilhado até os momentos de triunfo é algo constantemente esquecido pela mídia especializada.

Vindos de uma região que não conta com o mesmo investimento e a mesma estrutura do exterior, a quantidade de títulos conquistados pelos jogadores que compõem a Imperial desafia a lógica. Muito do sucesso pode ser atribuído à imensa qualidade dos jogadores, mas, a nível competitivo, apenas a habilidade não serviria para explicar tamanho feito. Deve-se, nos termos platônicos, apelar para a segunda navegação e ir além do que se pode ver.

Em um cenário dominado por jogadores lendários, a história de FalleN, fer, boltz e fnx é, ainda assim, um ponto fora da curva. Durante vários momentos, uma decisão diferente poderia colocar a carreira de todos esses jogadores em risco. Sem o apoio da comunidade, certamente a KaBuM.TD não chegaria ao Major e, sem ir ao Major, não garantiria a vaga para as competições posteriores. No final das contas, tudo gira em torno de um único elemento: a comunidade brasileira.

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A Imperial carrega as memórias de um tempo áureo para os fãs brasileiros

Acompanhar toda a história de um grupo de jogadores que, movidos pela paixão pelo jogo, larga a possibilidade de trilhar carreiras convencionais a fim de perseguir um sonho quase impossível é como ver um roteiro de filme sendo escrito em tempo real. Narrativas como essa, de ir contra a maré e escolher o incerto, só podem surgir em ambientes extremos. Nesse caso, um europeu ou um americano dificilmente entenderá o que é sair da zona de conforto, largar uma vida relativamente estável para perseguir algo que, muitas vezes, está longe de ser viável.

É bem verdade que projetos similares, como a reunião da antiga Fnatic e da antiga Ninjas in Pyjamas, falharam em obter os resultados esperados. Mas há algo que diferencia FalleN, fer, fnx, boltz e VINI de olofmeister, JW, flusha e outras lendas do Counter-Strike. Há algo que, em plena segunda-feira, coloca 720 mil pessoas para acompanhar uma partida da fase inicial da maior competição de CS:GO do mundo. 

Em cada espectador, talvez exista um sonho não realizado, uma escolha errada que lhe colocou em uma situação desagradável ou algo que lhe aflija. Porém, ao ver pessoas que, assim como a maioria dos brasileiros, vivenciaram a dura realidade da vida de um país de terceiro mundo e, mesmo assim, optaram por criar seu próprio caminho, elas são, nesse momento, inspiradas. Elas se alegram com a vitória como se fosse algo pessoal, mas sentem a derrota como se estivessem lá, na pele dos jogadores. 

Agora, mesmo sendo alvos de críticas de desconfiança, a Imperial sai de cabeça erguida do Major. Se as lendas do CS:GO brasileiro irão adicionar mais títulos na sua vitoriosa carreira ninguém pode dizer ao certo, mas, pela repercussão, pelos jogos duríssimos, pela paixão da comunidade e pelo amor ao CS:GO, me parece certo dizer que o The Last Dance já foi um sucesso. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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