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O não-jornalismo de games no Brasil

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Os meus leitores já sabem que eu gosto de escolher o tema de minhas colunas de duas maneiras: ou pego um tema polêmico para acrescentar um pouco mais, ou então um tema onde não existe nenhuma polêmica pra ver se crio alguma.

Bem, nesta semana vou mudar um pouco. O tema não é polêmico. Ou seja, não é a super-sexualidade de Bayonetta. ERA esse tema até eu chegar na metade do parágrafo acima. Mas eu juro que retomarei esse tema na semana que vem – eu simplesmente TENHO que comentar sobre o “vortex of overpowering femininity”, aquele golpe onde ela abre as pernas e começa a girar atirando pra tudo quanto é lado. O tema dessa semana é sobre a insipidez do jornalismo de games no Brasil. É, isso mesmo, eu falei isso, chamei a mãe de nome feio.

Vamos começar com o entorno da discussão: vi no site da Edge uma coluna do Chris Dahlen com o sugestivo título de “Seu sexo é uma arma”, onde ele conclui que “os homens condenam [Bayonetta] porque têm medo de gostar dela”. Eu complementaria com “depois que descobrirem que ela não é realmente uma mulher”. E entendam isso como quiserem… Bem, de qualquer forma, depois de ler sua coluna eu fui procurar outros textos sobre esse assunto, para ver outros pontos de vista. Encontrei um monte:

– Tiffany Chow, “Bayonetta – Sexuality as decoration vs. celebration”
– Leigh Alexander, editora da GamePro, “Bayonetta: empowering or exploitative?”
– A mesma Leigh Alexander, em seu blog Sexy Videogameland, “If you run out of ammo, you can have mine”
– “Iroquois Pliskin”, em seu blog Versus CluClu Land, “Bayonetta”
– David Radd, no Industry Gamers, “Opinion: why Bayonetta speaks to gamers”
– Nikole, do GameGirl, “Bayonetta: A new approach to sexuality in gaming”
– “Priyan”, do P-2006, “Under the hair: sexuality in Bayonetta”
E isso porque eu não procurei muito.

Aí eu resolvi ver como estava a história no nosso Brasil varonil. Procurei por “bayonetta sexualidade” e “bayonetta erotismo” no Google de todas as maneiras. A coisa mais próxima que encontrei foram frases tão cretinas como “Bayoneta ‘transpira’ sexualidade, o que vai agradar a muita gente” (artigo), e piadinhas com aquela frase do Hideki Kamiya na discussão com o Tomonobu Itagaki, quando ele disse “sou careca, mas não sou gay”.

Aí eu resolvi apelar: fui no blog do Pablo Miyazawa e peguei a lista de jornalistas de games que ele colocou nesse post. Como é uma “escolha dos melhores jogos de 2009 pela crítica”, supus que aí estaria o crème de la crème do jornalismo de games do Brasil. Muito bem, com essa lista de sites na mão, saí procurando.

Adivinhem só? Tudo notícias ou reviews. Menções ao assunto em questão? Apenas alguma ou outra frase de relance, como se todo mundo tivesse vergonha. E, mesmo nesses que são a elite, os top, os tchanãnãs, não poderiam faltar as notícias com títulos imbecis, como “Criador da heroína de Bayonetta discute curvas acentuadas da popozuda” (artigo).

Nada contra um pouco de humor descerebrado e/ou politicamente incorreto. Eu mesmo costumo soltar alguma coisa nesse estilo. Mas eu pelo menos gosto de pensar que faço isso apenas para relaxar, e que estou contrabalançando isso de alguma forma com essas colunas. Mas parece que o resto do jornalismo brasileiro, quando não é engraçaralho, se limita a simplesmente soltar notícias como se fosse um clipping do que recebe por e-mail das assessorias de imprensa, ou do que lê no Kotaku. Diabos, nem mesmo as Girls of War, ou a Game Girl, aproveitaram a deixa. Pode ser clichê, mas esse era o momento ideal para a gente ter um “ponto de vista feminino” sobre algum assunto. As opiniões que aparecem são sempre sobre pirataria, impostos e aqueles assuntos onde parece que se gera uma incômoda unanimidade para convencer os leitores de algo. E o pior: nem mesmo os blogs saem desse padrão. E, se tem algum que sai, por favor coloque o link aí embaixo nos comentários, porque merece mais pageviews para pelo menos aparecer no Google.

Antes que todo esse pessoal que eu mencionei (e que não mencionei) comece a jogar pedras pra cima de mim, já aviso: não, eu não sei se a imprensa em bancas (Edge, EGW, Rolling Stone e outras) sai desse padrão. Eu falo sobre o que vejo, que é a imprensa na internet. Além disso, tampouco estou dizendo que eles sejam incompetentes. Todo esse pessoal é competente pra caramba, senão não estaria onde está. Só que eles não estão fazendo “jornalismo”, estão fazendo clipping de notícias, gerando material de entretenimento ou fazendo serviço ao consumidor. Jornalismo não é só noticiar, é elogiar, é criticar, é questionar.

Pombas, será possível que apenas eu vi Quase Famosos? Critiquem, não sejam amigos nem fãs de ninguém! Leiam a crítica do Lester Bangs pro Kick Out The Jams – que é um excelente disco, mas ainda assim o Bangs mete o pau. Alimentem a discórdia. Façam com que seus leitores discordem de vocês, façam com que eles pensem um pouco! O jornalismo de games brasileiro precisa sair um pouco do estilo “Voz do Brasil”, precisa ser mais questionador, precisa ser mais opinativo. Não basta traduzir as opiniões de outros, precisamos das nossas próprias. Sei que eu tenho a minha. Mas quero contrastar ela com outros e no meu idioma, porque ler em inglês às vezes dá uma canseira…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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