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Retroview #2: Double Dragon, o jogo que definiu o gênero de briga de rua

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Double Dragon Arcade
Double Dragon

Acho que quase todo mundo que gosta de videogame e já passou dos 30 anos, quando era criança, tinha um fliperama que costumava frequentar. Aquele que você ficava juntando uns trocos para comprar umas fichas ou torrava o saco do pai ou do irmão para te levar lá e comprar as fichas para você. Pera aí… fichas? Se você tem menos de 18 anos talvez sequer tenha visto uma, mas era assim que nós jogávamos fliperama naquela época. Uma fichinha, um crédito. Um crédito, uma partida. É importante que você saiba disso tudo porque a história de hoje é sobre um jogo que passa longe de ser perfeito, mas que foi um marco dos videogames: eu estou falando de Double Dragon.

O que veio antes de Double Dragon?

Lembro como se fosse hoje: um dia cheguei naquele fliperama que eu frequentava e ele estava muito mais cheio que de costume. Tinha uma galera fazendo roda em uma máquina. Tinha tanta gente que tive que esperar uns 10 minutos para conseguir um lugar somente para ver o que estava acontecendo. Mas antes de ver, eu pude ouvir. Ouvi aqueles sons de socos e de fundo uma trilha sonora tão boa que ficou guardada na minha memória até hoje.

Quando finalmente vi o jogo, foi impressionante. Era muito colorido e com gráficos muito bonitos. Eu já tinha visto um jogo de briga de rua antes, se chamava Renegade e tinha uma máquina dessa naquele mesmo fliperama. Eu achava muito difícil jogar Renegade, perdia minhas fichas em poucos minutos. Na época eu não sabia, mas Double Dragon é a sequência espiritual do Renegade.

renegade arcade
Renegade é o que inspirou a criação de Double Dragon.

A versão japonesa de Renegade se chama Nekketsu Kōha Kunio-kun. É basicamente o mesmo jogo, porém com um visual bem mais adaptado para o mercado japonês. Já Renegade recebeu um tratamento visual no estilo do filme “The Warriors – Os Selvagens da Noite” para cair no gosto ocidental – e deu certo.

Foi o suficiente para a Technos Japan se motivar a fazer uma sequência para o jogo e essa sequência veio a ser o Double Dragon que conhecemos. Uma sequência espiritual, sem ligação direta entre os jogos, mas com semelhanças e evoluções no visual e na forma de jogar.  Em Double Dragon, você andava lateralmente pelas fases, havia progressão, chefes e um objetivo. Também era um jogo para dois jogadores simultâneos na tela, algo que os donos de fliperama adoravam, já que as pessoas gastariam o dobro de fichas na mesma máquina.

A Technos Japan antes e depois de Double Dragon

A Technos Japan começou pequenininha lá em 1981, com três carinhas em um apartamento de um cômodo. Todos eram ex-funcionários da Data East e, francamente, só produziram jogos medianos. Dessa época, acho que Karate Champ foi o jogo mais conhecido dela. Isso até o lançamento de Nekketsu Kōha Kunio-kun/Renegade em 1986 e Double Dragon em 1987, que foi um sucesso mundial e colocou a desenvolvedora no mapa. O responsável por esses dois jogos foi um camarada chamado Yoshihisa Kishimoto. De onde Kishimoto tirou inspiração para criar Double Dragon? De sua própria vida, das lembranças das brigas que ele arrumava na escola todo santo dia.

Kishimoto vivia bravo, com problemas de família e desprezado pela namorada. Some isso a paixão dele pelos filmes do Bruce Lee, em particular um filme que ficou muito famoso chamado “Enter the Dragon”. Kishimoto se via no papel de Bruce Lee e, se Bruce Lee era o dragão no filme, Kishimoto era o dragão na vida real. Double Dragon é como Kishimoto enxergava sua vida, um dragão lutando contra tudo e todos. Mas, se na vida real não era possível ter dois Kishimotos, no jogo isso não era problema – daí veio Double Dragon. O jogo poderia se chamar Duas Vezes Kishimoto, ainda bem que não foi.

O que fez Double Dragon ser tão especial?

Double Dragon soube combinar múltiplos fatores a seu favor e o conjunto da obra o tornou a referência que todo mundo copiou no gênero beat ‘em up, e digo mais: foi ele quem tornou o gênero popular. Para 1987, era um jogo muito bonito e avançado e isso foi fundamental para o seu sucesso. Double Dragon chamava muito a atenção de quem o via pela primeira vez, o impulso de querer jogar era praticamente instantâneo!

Qual o segredo para essa boniteza toda? Um hardware customizado. Double Dragon era capaz de mostrar 384 cores na tela de uma paleta de 4096. Isso é cor pra caramba! Pensa que o Nintendinho tinha 48 cores AO TODO. Fora isso, Double Dragon usava uma série de processadores 8-bit rodando em paralelo e um chip de som FM da Yamaha, capaz de gerar músicas memoráveis.

Na parte audiovisual, o jogo estava muito bem servido, mas na parte de processamento já não era bem assim. Double Dragon é notoriamente conhecido por ter slowdowns (lentidão massiva) em várias partes do jogo. Todo esse processamento paralelo de 8-bit não era suficiente para dar conta de tudo que acontecia na tela sem perder a velocidade. Curiosamente, as versões piratas de Double Dragon usavam processadores mais rápidos e não tinham essa lentidão do original.

As inovações na jogabilidade

Muitos jogos de luta eram baseados em soco e chute, esses eram os golpes mais comuns. Double Dragon oferece muito mais: cabeçada, voadora, um jogador pode segurar um inimigo enquanto o outro bate nele e por aí vai. Você também pode arremessar o inimigo por sobre os ombros, dar cotovelada e usar armas diferentes como taco de baseball, chicote, barris, dinamite e faca. Tem variedade no que você pode fazer.

Double Dragon pancadaria
O que não falta é pancadaria durante o jogo.

Essa variedade torna o jogo menos repetitivo e gostoso de jogar. Double Dragon oferece cenários bem diferentes com armadilhas, plataformas e temas diversificados. São quatro fases no total, cada uma com sua própria trilha sonora e um chefão no final. Estamos falando de 1987. Isso tudo é super comum hoje, mas na época, nem tanto. A galera se divertia explorando as possibilidades dos cenários, com boa variedade de inimigos e um chefe com cara de chefe final. O jogo segue uma narrativa com começo, meio e fim e o seu sucesso não veio por acaso.

Super bugado

Por outro lado, o game é repleto de bugs e falhas de design, coisas que na época passavam batidas escondidas pela diversão, mas que hoje claramente são vistas como defeitos. Double Dragon é um jogo completamente desbalanceado e a cotovelada é a prova disso. Uma vez que você aprenda como usar esse golpe, todo o resto se torna irrelevante. Você pode passar o jogo todo usando esse mesmo ataque, pois os inimigos não têm defesa contra ele. Só não é garantido que você vai chegar no fim do jogo usando essa “técnica”, existem outras formas de morrer.

Além de falhas de colisão (as vezes seu golpe não acerta o inimigo mesmo quando visualmente está acertando), você pode cair em um buraco e ressuscitar todas as vezes dentro do próprio buraco, perdendo todas suas vidas em questão de segundos. Você pode pular achando que vai cair em uma plataforma e ao invés disso cai para morte certa. Inimigos podem simplesmente sumir da tela e você fica sem ter o que fazer até o tempo acabar. Ainda assim, apesar de todas essas falhas, o jogo diverte. Existe um nível de satisfação em bater nos inimigos de Double Dragon. Dar porrada no Abobo e em seus diversos clones, por exemplo, é muito bom!

A história do jogo (ou a falta dela)

A década de 1980 foi uma época que não existia o politicamente correto e histórias de violência gratuita faziam sucesso. O enredo de Double Dragon é o clichê de todo filme de vingança daquela época. Uma gangue sequestra a namorada dos irmãos gêmeos Billy e Jimmy Lee (isso mesmo, a namorada de ambos!) e a cena de sequestro tem direito a murro no estômago e calcinha aparecendo.

Double Dragon abertura
A cena de abertura icônica de Double Dragon.

Na cena seguinte, o jogo começa com os irmãos Lee saindo de casa para o resgate e essa cena do início é icônica por não fazer nenhum sentido. Pensa comigo: os irmãos Lee saem de casa pela garagem, você ouve o motor de um carro acelerando ao fundo, mas quando o portão da garagem se abre os irmãos vão a pé atrás da garota, mesmo com o carro esportivo vermelho à disposição. Eles tiveram o trabalho de ligar o carro e acelerar, mas acharam melhor ir a pé. Lembrando que a gangue estava logo ali e de carro eles os alcançariam em segundos, mas aí não daria tempo para gangue retornar para seu esconderijo e Double Dragon seria um dos jogos mais curtos da história.

A parte que eu considero mais interessante é que, jogando com dois jogadores, logo após derrotar o chefão final, os irmãos devem lutar entre si ATÉ A MORTE para ver quem fica com a garota. Curioso porque antes do sequestro os três moravam juntos numa boa. Isso só não é mais estranho do que os dois irmãos voltando vivos em Double Dragon 2, como se nada tivesse acontecido.

Um jogo que definiu um gênero

Brincadeiras à parte, Double Dragon é um clássico, um divisor de águas. Além de várias sequências no fliperama, gerou muitos jogos para todos os consoles e computadores imagináveis. Mesmo depois de 30 anos do seu lançamento, a franquia segue viva. Recentemente saiu o Double Dragon IV no mesmo estilo dos jogos do Nintendinho. Além dos jogos de sua própria franquia, Double Dragon inspirou centenas de outros títulos do gênero, que também são adorados e venerados como Final Fight, Streets of Rage, Captain Commando e muitos outros. Praticamente, todo jogo Beat ‘em up que você já viu deve alguma coisa para Double Dragon.

Apesar de todas suas falhas e de não ter envelhecido tão bem, Double Dragon foi o jogo que fez um gênero ganhar vida e se tornar popular durante toda a década de 1990. A quantidade enorme de jogos que vieram depois dele, copiando seu estilo de forma discreta ou descarada, é a maior prova do seu enorme legado. Double Dragon é um jogo que merece ser visto e jogado por todos pelo menos uma vez na vida.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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