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Review – Cyanide & Happiness – Freakpocalypse

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Cyanide & Happiness: Freakpocalypse

Cyanide & Happiness surgiu em 2005 na forma de webcomic, em uma época mais ingênua da internet. Combinando uma arte tosca, baseada em palitinhos, com um humor selvagem que beirava o sombrio e não se esquivava de temas polêmicos, o coletivo de criadores Explosm se destacou. A tira foi escolhida cinco anos depois como uma das dez melhores webcomics de todos os tempos. Sua popularidade se transformou em longevidade, mesmo em uma era em que memes se tornaram uma linguagem própria e o politicamente incorreto se tornou uma bandeira política.

Com mais de quinze anos de quadrinhos, curtas de animação, programas de televisão e até jogos de cartas, faltava levar esse humor para os jogos eletrônicos, à exemplo dos veteranos e precursores do South Park. A primeira tentativa resultou no espúrio e mal planejado Rapture’s Rejects, que buscava um lugar no extremamente competitivo mercado dos battle royales. Desta vez, a Explosm se juntou com a desenvolvedora Skeleton Crew Studios para acertar uma mosca e errar outras com Cyanide & Happiness – Freakpocalypse.

Diário de um banana

Coop é o protótipo do adolescente fracassado: seus pais morreram em um acidente de carro, não tem amigos na escola, se atrapalha em tudo que faz, é perseguido pelos bullies e é menosprezado pelos professores e pela direção da escola. Não está fácil, mas Coop tem um bom coração e deseja apenas ajudar os outros e conseguir um par para o baile da escola. Você já viu esse cenário dezenas de vezes em dezenas de obras, mas não com o humor ácido de Cyanide & Happiness.

O que está acontecendo aqui?!
Que é isso, fessor?

Rir da desgraça alheia é um dos esportes favoritos da raça humana e Coop está aqui para isso. Ele se torna o seu simpático saco de pancadas, embora haja momentos no jogo em que a brincadeira perde a graça e você espera o ponto de virada do protagonista. Afinal, você controla Coop, logo, você é o alvo de todo tipo de humilhação possível. Felizmente, o personagem tem uma resposta sarcástica ou auto-depreciativa para sua própria vida e aquilo que o cerca.

Ao longo da aventura, você terá contato com professores neuróticos, velhos tarados, situações nojentas, piadas de duplo sentido, piadas explícitas de pinto, violência física e outras bizarrices que testarão o poder da quinta série dentro de você. A trama demora a engrenar (e o tutorial é insuportavelmente longo e vergonhoso), mas é apenas uma questão de tempo para você se identificar com o jovem Coop, torcer pelo seu momento de glória e gargalhar com suas presepadas.

Cyanide & Happiness
Sim, o jogo é desbocado. O que você esperava?

Verborragia pura

Cyanide & Happiness – Freakpocalypse se propõe um adventure, daqueles em que você clica em objetos, recolhe alguns, combina outros e resolve os problemas do jogo. Felizmente, não encontramos aqui o vício ancestral de ficar procurando pelo pixel exato que terá suas respostas (como acontece no recente Encodya). Por outro lado, temos uma overdose de interação e esse é certamente o maior defeito do jogo.

O adventure traz cenários muito bem desenhados, preservando o estilo característico da franquia e repletos de detalhes. Em certa medida, é quase como se fosse um jogo de “hidden objects”, porque Coop pode interagir com praticamente tudo. Enquanto os adventures tradicionais traziam um único objeto oculto que precisava ser encontrado com precisão milimétrica, desta vez temos muitas vezes mais de dez elementos clicáveis em cena. Para cada um deles, sem exceção, Coop tem um comentário.

Cyanide & Happiness
… e morreu.

O dublador do jogo está de parabéns. Esse herói sem capa gravou milhares de falas individuais para os elementos com que você pode interagir, sem deixar cair a peteca. Sem contar os vários diálogos que completam a brincadeira. É compreensível então que o jogo traga apenas legendas em português e não uma dublagem local, porque seria uma tarefa hercúlea. Até mesmo as legendas falham em alguns pontos: a escolha da fonte faz com queo “cê cedilha” fique representado maior que as outras letras e algumas (raras) passagens continuaram em inglês.

Porém, esse excesso de informação é uma faca de dois gumes. O jogador que se dispuser a realmente clicar em tudo irá gastar um tempo enorme e o ritmo será prejudicado, em troca de itens cosméticos desbloqueáveis ou troféus. Considerando-se também que cerca de metade das piadas não serem tão engraçadas quanto seus criadores pensam, aquele que clicar em tudo será exposto a um volume sufocante de vergonha alheia.

Cyanide & Happiness
Planet Hemp na área!

Em contrapartida, aqueles que não clicarem em quase nada e apenas no estritamente necessário para cumprir as missões terão uma experiência também abaixo do desejado. As pistas são claras e os objetos importantes são levemente destacados, então é possível resolver a maioria dos desafios sem problemas e até mesmo ignorar as missões paralelas. Porém, quem se concentrar somente nisso irá perder muitas piadas hilárias, não absorverá o espírito de Cyanide & Happiness e irá reclamar que Freakpocalypse é curto.

Tecnicamente, há quem tenha terminado o jogo em apenas duas horas. Da minha parte, inicialmente eu estava clicando em tudo e me entediando. A partir do momento em que comecei a limitar minha exploração, tive uma jornada muito mais prazerosa que levou seis horas e meia para ser “concluída”.

Cyanide & Happiness retornam… um dia

O que nos leva ao segundo grande problema de Freakpocalypse: ele não termina. Boa parte dos elementos que você vê no marketing ou mesmo no trailer não está presente no jogo. Não dá para chamar de propaganda enganosa porque a página do jogo nas lojas deixa claro que se trata do primeiro título de uma trilogia. Inclusive o nome completo desse episódio é “Part 1: Hall Pass to Hell”. A aventura termina após um evento de proporções colossais que altera completamente o status quo de toda a cidade.

Cyanide & Happiness
Uma cidade normal como qualquer outra.

Não há qualquer previsão de lançamento para a continuação. Na verdade, até mesmo esse capítulo passou por atrasos constantes. O jogo nasceu no Kickstarter em 2017, ultrapassou sua meta e foi prometido para 2019. Em 2019, ele foi adiado para 2020. Em 2020, ele foi adiado para 2021 e agora sim nós podemos ver como ficou… um terço da aventura proposta.

Se você não se importa em jogar um título incompleto, se é um otimista incorrigível que acredita na continuação em breve ou se apenas deseja soltar algumas risadas em meio a alguns eventos constrangedores, então Cyanide & Happiness – Freakpocalypse foi feito para você. Caso contrário, sempre teremos os quadrinhos e as animações para saciar nossa vontade de rir da desgraça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Prós

  • Frequentemente engraçado
  • Desafio suave
  • Estilo visual simpático
  • Dublagem caprichada (ainda que em inglês)

Contras

  • Ocasionalmente sem graça
  • Curto e inacabado
  • Começo arrastado
  • Peca pelo excesso de itens interativos
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