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Review – Essays on Empathy

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EoE bg Gamerview

Empatia, uma palavra que parece cada vez mais perdida no dia a dia das pessoas. Muitas vezes ela está em falta em determinadas situações, outras vezes ela se encontra presente, e em algumas ela não é necessária. Assim como é de se esperar pelo título, Essays on Empathy, um projeto que traz dez jogos criados pela equipe Descontructeam, a mesma equipe por trás de clássicos como Red String Club e Gods Will be Watching.

Os jogos são curtos e foram desenvolvidos durante o evento Ludum Dare. No entanto, mesmo com o curto tempo de produção, alguns são realmente marcantes, enquanto outros acabam sendo um tanto quanto pedantes em minha opinião. Contando até mesmo com depoimentos do time, podemos ter uma visão maior do processo de idealização e criação. Como são dez jogos, irei fazer um top 10, começando pelo melhor e terminando com o que menos mexeu comigo. Para quem deseja comentar o clássico “quem lacra, não lucra.”, pode pegar o próximo ônibus direto pro lixão.

De Tres al Cuatro

De Tres al Cuatro foi de longe o projeto mais longo e mais prazeroso de se jogar de todos dentro de Essays on Empathy. Mas sobre o que se trata esta experiência humoristíca ? Bom, aqui temos um casal gay de comediantes, tentando sobreviver com seus stand-ups em uma exótica ilha. Controlamos Graza, um jovem loiro e boa pinta, que faz dueto com namorado Bonachera.

Imagem do review de Essays on Empathy
Melhor uma piadinha ruim do que ficar encarando a plateia.

O jogo traz um sistema de cartas com quatro ações. Assim como em uma piada real, temos que ter a construção e a punch-line, algumas vezes a mesma sai fraca ou podemos travar no meio da piada. E estas são nossas opções. Combinando elas devemos fazer o máximo para fazer a plateia rir, sempre escolhendo entre três cartas após Bonachera passar a tocha para Graza.

É de longe o mais completo de toda a coletânea de Essays on Empathy, sendo bem abrangente e com um alto valor de replay. No começo as piadas são bem fracas, mas com o tempo se tornam bem fortes e inteligentes, abrangendo diversos temas. Além disto, entre os shows é possível ver diferentes interações do casal, sejam caminhadas pelas praias, bebidas no bar, ou uma noite de amor.

Dear Substance of Kin

Pareado ao título acima, Dear Substance of Kin é um dos jogos mais obscuros da coletânea. Neste mundo fantástico, tomamos controle de um ser místico que pode ser visto tanto como um beneficiário, quanto como um carrasco. Assim o Latoeiro segue rumo a uma cidade decrépita, batendo nas portas que expõe um pano ensanguentado, atendendo pedidos. Mas não tente enganá-lo, ou se arrependerá tanto de seu pedido, quanto das punições que podem seguir.

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Um desenho de sangue tende a criar um desejo de carne.

Enquanto vagueia pela cidade, o latoeiro irá encontrar indigentes e pedintes. Aqueles fora de casa que desejam sua ajuda podem virar sacrifício, poupando o sofrimento de outros. Mas em certos casos, ainda será necessário um sacrifício, seja ele a língua de um pai, o ventre de uma mãe ou o cérebro de uma criança. Tudo isso a fim de sanar o desejo de um, que muitas vezes pode não ser voltado para o coletivo.

Usando um sistema de point ‘n’ click, o jogador move o latoeiro de casa em casa escutando as súplicas dos moradores. Uma vez que o pagamento em sangue tenha sido feito, seja daquela casa ou não, um desenho deve ser feito. Partindo da vontade de cada jogador, realizar ou não os desejos dos moradores pode alterar em alguns casos o desfecho da história.

Supercontinent Ltd

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Faz um 9090 aí, amigo.

Uma dlc de The Red String Club era algo que você gostaria ? Então Supercontinet Ltd é para você! Conta uma história solo de Brandeis, invadindo a empresa Supercontinent Ltd a pedido da VEGA. Enquanto busca provas contra Adrian Ferguson, usando nada mais, nada menos que um telefone fixo, o que mais poderia ser seguro em uma época onde tudo que possui interface pode ser hackeado?

Após invadir o escritório de Ferguson, devemos buscar pistas nos itens do local e através dos números que encontramos espalhados pelo local, a fim de descobrir os eventos que estão por acontecer durante esta fatídica noite. O que começa apenas como uma investigação, acaba se desenrolando em vários crimes encadeados por vários elos que se interligam de maneiras improváveis.

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Deveria ter olhos nas costas, iria evitar problemas.

O que mais gostei deste título de Essays on Empathy é a maneira como o jogador realiza as ligações. Usando o próprio teclado do computador, discamos os números encontrados pelo escritório ou outras ligações. Contando com mais de um final, o jogador deve escolher bem suas palavras e ações dentro do local: às vezes um insignificante gesto pode acabar mudando toda a narrativa. Uma pedida perfeita para os fãs da novela cybernética.

Eternal Home Floristry

Nada é mais belo que uma flor em um cena de crime, ou no desenrolar do luto daqueles atingidos pela tragédia. Essays on Empathy nos traz uma visão mais por dentro dos bastidores do mundo floral com Eternal Home Floristy, onde entramos na pele de um assassino de aluguel de uma grande família mafiosa em um futuro distópico. Com um braço a menos agora e em fuga, Gordon busca refúgio na floricultura de Sebastian

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Suicídio perfumado e escrito em pétalas.

Uma excelente história que irá fazer com que pensemos muito antes de montar os buquês a serem enviados. Com três curtos casos, que podem ter diferentes desfechos, Sebastian nos guia pela construção de mensagens perfumadas de amor, felicidade, rancor e até mesmo hostilidade mortal. Além de explorar a fundo as personagens não vistas, como um dos antigos chefes da família de ambos, que assassinava homossexuais dentro da família para poder esconder a sua própria homossexualidade.

Um excelente conto, curto e com um desenvolvimento excelente, com personagens apenas citadas, mas que são tão importantes quanto Gordon e Sebastian. Usando apenas o mouse, estudamos os arranjos e os significados de cada uma das flores. Ponderando entre mensagens agressivas, de acolhimento ou de puro desprezo mesmo. Sentimentos comuns dentro do que se espera de uma máfia fictícia.

Engolasters January 2021

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…Okay? Gratuito assim?

Uma história mais voltada para o público feminino desta vez, com uma pitada de Arquivo X. Em Engolasters January 2021, temos um hipotético evento, que fora criado como uma premonição humorística. Nele Marixtell, uma ufóloga, se muda de Barcelona com sua família,para a remota e nevada cidade de Engolaster, local visto como um ponto de forte influência alienígena. Assim como é de se esperar, a mudança afeta fortemente seu marido e filho, Jaime e Ricard, respectivamente.

Mas justamente no dia em que ambos acabam brigando novamente, longe dos olhos de Marixtell, a mesma é abduzida por Aliens e tem seu útero retirado. Agora ela se vê dividida, entre salvar sua família e abrir mão de seu sonho de descobrir aliens, ou arriscar sua vida enquanto sangra lentamente em busca de formas extraterrestres. Usando pistas deixadas por runas ativadas por sangue, podemos ir em busca de respostas.

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Voltar pra casa? “Tô de boa”.

Este foi o primeiro título que a empatia começou a falhar comigo. É totalmente injusta a solução de Marixtell abandonar toda sua carreira para voltar com sua família para Barcelona, o famoso ditado de que a necessidade de muitos vem antes da individual. Porém a obra apresenta problemas entre Ricard e Jaime, muito amplos para serem explorados em uma obra curta assim. O foco é Marixtell, mas a depressão de Jaime e o abuso que o mesmo inflige em seu filho são muito pouco explorados para sentenciá-los como dois egoístas. Assim sendo, Essays on Empathy acaba neste título dando uma história onde apenas um dos lados recebe palco. Mas ainda assim é um excelente ensaio de ficção.

11:45 A Vivid Life

Experimental é um termo que eu dificilmente usaria em um projeto tão curto assim. Essays on Empathy apresenta uma curta história bem diferente com 11:45 A Vivid Life. Na curta trama, uma jovem rouba uma máquina de Raio-X a fim de se examinar e descobrir se seu esqueleto é seu ou não. O curta possui seis desfechos, cada qual com seu próprio sentimento a ser transmitido. Enquanto exploramos o corpo da jovem, notamos locais que devem ser “operados”.

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Qual será a resposta correta?

O jogo tem sucesso em apresentar situações de abuso, PTSD e até mesmo aceitação dentro de um corpo do qual o indivíduo pode não se sentir confortável. Eu realmente achei profunda a maneira como a escrita consegue transmitir sentimentos de horror e até mesmo ligar algumas chaves no meu cérebro em certas frases. Mas assim como consegue ter sucesso, o jogo consegue ao mesmo tempo lançar tudo para cima com seus finais.

Todos os seis finais acabam cortando todo e qualquer aprofundamento maior na trama, seja qual for o desfecho dela. Eu fiquei extremamente irritado em todos os finais, seja ele o da aceitação ou no qual achamos ter outro esqueleto dentro de nós. Toda a construção acaba caindo por terra com o “plot twist” apresentado ao final. Um jogo que consegue tocar em nuances tanto psicológicas, quanto físicas, em suas cenas de auto-mutilação, mas que acaba se sabotando com seus finais.

Behind Every Great One

Imagem do review de Essays on Empathy
FORÇA, MULHER!

Este game me fez sentir uma fúria descomunal com este casal e mais tarde a família toda. Como diria Jon Tron, eu gostaria que a parede caísse e todos eles morressem, por que são todos horríveis. Exceto Victorine, a protagonista, que vive uma vida opressiva de esposa, aquela com violência velada em palavras, que vem inicialmente de seu marido Gabriel, um famoso pintor que está na crista da onda do sucesso.

Victorine não possui nenhuma paixão ardente por algo, e semelhante a seu marido vive seus dias em casa. Com o tempo, outros personagens são adicionados à trama e todos acabam piorando o quadro. O gameplay é simples, enquanto andamos pela casa, podemos realizar atividades que irão relaxar Viviane, enquanto outras irão desgastá-la. O que não entendo é que em certas partes isso acaba ficando extremamente forçado.

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Se fosse minha mãe, ela tinha entrado no ateliê e destruído tudo. #VaiMãeUrso

Eu entendo que limpar a casa é desgastante, ainda mais morando com alguém que não reconhece ou ajuda nisto. No entanto, Victorine não possui nada que a prenda a Gabriel, fora seu relacionamento. O jogo traz à tona uma personagem com baixa autoestima e que acaba chorando para aliviar o excesso de estresse. Mais uma vez em Essays on Empathy, não consegui sentir empatia, pois a história impede que façamos com que Viviane reaja ou mude sua trajetória. Indo sempre para o mesmo final, repetindo o ciclo vicioso de abuso e passividade.

Zen and the Art of Transhumanism

Se tem algo que eu amo é uma boa história sobre mundos cyberpunk. Shadowrun, a trilogia Sprawl, Mirrorshades, GitS, Akira e a lista segue. Mais uma vez temos um jogo que traz à tona os ares de The Red String Club. Em Zen and the Art of Transhumanism, controlamos um androide responsável pela instalação de módulos nos corpos dos clientes a fim de aprimorar suas habilidades e visões do mundo. Mas também podemos agir por conta própria.

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Apenas relaxe e se concentre em fazer um módulo espetacular.

Usando o botão de ação X, e o mouse para selecionar ferramentas e moldes, devemos criar os módulos a serem instalados nos clientes. Alguns irão agir da maneira que o cliente deseja, outros irão fazer o contrário, mas irão garantir uma maior clareza de espírito nos mesmos. Este foi mais um dos jogos onde me vi em um cabo de guerra com a história, tentando me empurrar através de comentários culposos que talvez não tenha sido correta minha atitude.

Mais uma vez, um tema e uma história muito amplos para serem explorados em uma obra tão curta. Como posso instalar um módulo que irá diminuir a agressividade de um membro da Yakuza? Ele pode sair dessa vida, mas pode acreditar que um pedaço dele vai ficar para trás de qualquer jeito, ainda mais em um universo onde o ditado é high tech, low life. Tentar resumir Ghost in the Shell em um jogo de no máximo 30 minutos é impossível.

The Bookshelf Limbo

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Por Deus, essa experiência foi frustrante.

The Bookshelf Limbo só não ficou por último pois Underground Hangovers existe. Mas de longe, entre todos os projetos de Essays on Empathy, este foi sem dúvida extremamente frustrante. Nele controlamos um personagem que busca uma HQ para presentear seu pai, para isto navegamos por títulos expostos em uma prateleira, passando por títulos extremamente “MACHOMAN” como Burnt Bridge Redemption, poemas desenhados e até mesmo HQs eróticas.

A premissa é simples: escolha uma entre as onze disponíveis, não há escolha errada. Bom, como o jogo não nos apresenta as personagens, apenas informações soltas sobre o protagonista e seu pai, resolvi encarnar o personagem e escolher uma HQ que daria para meu pai, caso eu estivesse nesta situação. Eu fiz todas as combinações possíveis e The Bookshelf Limbo te empurra goela abaixo o que você deve escolher aqui.

Imagem do review de Essays on Empathy
Então esse é o foco desse ensaio?

Ou seja, independente do que é apresentado sobre eles, o jogo te dá literalmente duas escolhas. Eu me senti extremamente insultado o tempo todo, primeiramente por não ter nenhuma opção de escolha, segundo pelo fato de que aqui o foco parece estar mais em mostrar que homens héteros não tem capacidade de leitura de nada que não seja como Rambo! O pior é quando após escolher o livro, nos é perguntado se queremos por um adesivo com uma mensagem bonita no embrulho. O que sempre é deixado de lado, mesmo que eu escolha.

O texto inicial e o vídeo apontam este ensaio como um presente feito entre a equipe e um amigo. Não há empatia a ser encontrada aqui, apenas um sentimento vago de escolha e resposta. De longe um dos piores momentos, se é algo tão pessoal para Ivan, então não há como sentir empatia aqui, pois não há escolha, não há problema, apenas palavras e códigos ao léu.

Underground Hangovers

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Um passo de cada vez.

Quando eu finalizei Underground Hangovers, foi como se um gigantesco dedo do meio aparecesse no menu de Essays on Empathy em minha direção. Neste curto Metroidvania, acompanhamos um grupo de exploradores ilhados em um planeta inóspito. Com isso devemos minerar preciosos minerais que se encontram na mina abaixo da base da equipe, assim criando um foguete que poderá salvá-los. Mas a aventura será difícil.

Primeiramente pelo fato do lugar estar guardado por criaturas nativas do planeta, segundo pois o local é um enorme labirinto. Por isso é preciso força e determinação para poder sobreviver aos desafios subterrâneos. Imediatamente podemos notar que o jogo é bem curto, mas bem exigente, o que não é problema. Metroidvanias tem esse foco em backtracking. Aqui ,caso esteja preso em uma área, geralmente há um portal próximo do jogador, esse que frequentemente estará voltando a base para melhorar seu equipamento.

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Fazer uma armadura de diamante, tipo Minecraft.

Porém aqui o grande problema é que o jogo possui sérios problemas de clipping através de objetos, além de contar com cenários muito mal produzidos. Adquirir uma pedra verde foi uma luta, pois o local de acesso é extremamente de difícil acesso. O que acaba induzindo o jogador a uma série de tentativas de acertos e erros a um nível absurdo, tudo isso para um final que deixaria qualquer um insano. Sem dúvida alguma o pior jogo da coletânea.

Uma xicara de chá

Essays on Empathy é um excelente ensaio na grande parte. Mesmo alguns jogos que não gostei tanto possuem material e mensagens a serem ensinados por eles. No entanto, nos últimos títulos citados acima, creio que o foco foi totalmente perdido de outros temas. Ainda assim, a equipe da Deconstructeam está de parabéns por trazer assuntos polémicos e que merecem cada vez mais espaço no meio gamer, um meio que se vê cada vez mais dividido e cheio de ídeias quadradas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Prós

  • Grande parte do material é excelente
  • Personagens fortes e representativas
  • Sem medo de mostrar as cores que deseja
  • Estilo de arte e trilha sonora agradáveis

Contras

  • Pedante em alguns momentos
  • Temas importantes tratados em pouco tempo
  • Julga o jogador por suas escolhas em narrativas livres
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