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Review – Hellblade: Senua’s Sacrifice

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Hummm… Acho melhor eu não entrar nessa árvore

Hellblade: Senua’s Sacrifice é uma destas gratas surpresas que chega de mansinho e deixa todo mundo perplexo. E isso aconteceu graças a uma campanha de marketing sutil, sem criar aquele alarde todo que chamamos de hype. O novo título da Ninja Theory reaproveita conceitos já criados para seus jogos anteriores, como o visual tribal de Enslaved: Odyssey to the West e a jogabilidade exemplar de DmC: Devil May Cry e, ainda assim, oferece uma experiência completamente nova e perturbadora.

A história apresenta a jornada da guerreira celta Senua, que embarca em uma viagem ao submundo de Hel, criado à partir de suas próprias manifestações psicóticas. Para convencer os jogadores, os produtores consultaram neurocientistas para conseguir passar a experiência da psicose e os efeitos devastadores na mente humana. Ou seja, as alucinações, os murmúrios e as epifanias da protagonista são inspiradas em casos de pacientes reais, com os quais os próprios produtores passaram horas juntos.

Personificando a esquizofrenia

O propósito de Senua é salvar a alma de Dillion, seu marido, que foi morto brutalmente. Ela carrega consigo o crânio do amado, representando o receptáculo de sua alma. Abraçando a escuridão em função do trauma, o único jeito de salvá-lo é enfrentando os deuses nórdicos com a espada Gramr, a única capaz de matá-los. O caminho é longo, doloroso e começa com ela adentrando Hel de canoa, passando pelo primeiro cenário primoroso do game.

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Não se deixe enganar: Senua é bonita, mas piradinha da Silva.

Antes de comentar o visual, preciso destacar o ótimo trabalho da Ninja Theory com a captura das expressões faciais da protagonista. Uma jovem chamada Melina Juergens foi convidada para o papel e este foi seu trabalho de estreia como atriz e com videogames. Mesmo sendo o primeiro, ela consegue entregar uma performance convincente, encarnando de corpo e alma o sofrimento da protagonista. Ela não chega a alcançar o nível de Andy Serks (o Cesar, da atual trilogia Planeta dos Macacos), obviamente, mas o resultado é satisfatório.

Outros atores também emprestam seus rostos e vozes em uma mistura de computação gráfica com vídeo tradicional. Vale destacar também as vozes que permeiam a mente de Senua, gravadas usando um microfone binaural. Para ampliar a experiência do jogador, o próprio game avisa para jogar com um fone de ouvido. Você ouvirá as vozes em 360º e numa frequência que o deixará desorientado com tantas informações, verdadeiras e falsas, sentindo na pele o transtorno mental de jovem guerreira.

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A cada área explorada, uma beleza única para apreciar.

Sem dar spoilers, posso dizer que o jogo explora traumas envolvendo a família de Senua. Não é apenas a morte do marido que a atormenta: seu sofrimento começou há muito tempo e tudo isso é devidamente contado ao longo da história. Até mesmo a escuridão é tratada de várias formas, como a podridão que se espalha pelo braço de Senua. Outro aviso importante no início do game diz repeito ao cuidado que o jogador tem que ter com a morte: a cada vez que falhar, a escuridão se espalha pelo braço até atingir a cabeça, levando Senua à morte permanente – e deletando o progresso do jogador.

Viagem ao submundo de Hel

Produzido com a Unreal Engine 4, Hellblade: Senua’s Sacrifice apresenta uma constante mudança visual na ambientação de Hel, como aquelas que vimos em DmC (com o mundo sendo construído e desconstruído) e as visões causadas pelo gás do Espantalho no início de Batman: Arkham Knight. Estes são apenas dois exemplos da linguagem visual usada no game, que explora também a fragmentação de cenário em estilhaços transparentes, bem como portais que revelam ou ocultam passagens ao olhar por eles e atravessá-los. Em outras palavras, Hel transborda criatividade.

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Procurando runas formadas por detalhes do cenário.

Cada cenário é único e criado em função da narrativa, e também para evitar estender a vida útil do game apenas em função da duração (que é boa, cerca de 10 horas). Os cenários variam entre florestas, vilarejos e ruínas até chegar ao inferno, claramente inspirado na “Divina Comédia” de Dante Alighieri. Esquece o jogo Dante’s Inferno (2010)… Aqui sim o inferno é representado de forma inteligente e poética, mesmo não havendo a passagem pelos nove círculos de sofrimento. Com a opção de ligar o modo de fotografia, passei um bom tempo registrando as belas imagens usadas nesta análise.

Em termos de jogabilidade, Senua dispõe apenas de sua espada e o dom da visão, que funciona como um foco para ler runas e resolver quebra-cabeças. Diferente do que se espera, Hellblade: Senua’s Sacrifice não é um jogo de ação, mas sim uma experiência. Há combates e até chefões para enfrentar, mas o foco está totalmente na história e sua protagonista. Até a exploração é limitada aqui, se resumindo a resolver quebra-cabeças simplistas para avançar. Tudo o que você precisa fazer é achar runas escondidas, às vezes em forma de detalhes nos cenários – como uma viga de madeira que, em determinado ângulo, cruza com outra para formar um símbolo – e assim destravar portões. Há também runas em pilares que, ao serem encontradas, contam histórias da mitologia nórdica. Não são obrigatórias mas, se conseguir achar todas, desbloqueia uma conquista. Para os jogadores impacientes ou ávidos por batalhas, certamente este será um ponto negativo. Porém existe um motivo para estes desafios existirem, além de dar fôlego para a exploração.

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Lutando com vontade e um dread estiloso.

Não há hud nem tutorial aqui. Aprendemos em plena batalha que Senua possui uma esquiva, uma defesa, um ataque rápido, outro forte e um chute para quebrar a defesa do oponente. Dá inclusive para selecionar o alvo e combinar ataques correndo. Ela carrega também um espelho que, a cada ataque bem sucedido, começa a formar um símbolo brilhoso. Assim que o símbolo se forma por completo você pode ativar o foco especial, que causa a desaceleração do tempo e permite atacar os inimigos rapidamente. Tal símbolo perde o brilho ao tomar dano, ao mesmo tempo que a tela fica avermelhada de sangue. Se tomar muitos golpes e morrer, você retorna ao último ponto salvo e com o braço mais infectado.

Quanto aos adversários, temos o inimigo comum, um com escudo, um mais forte e outro bastante apelão, que ataca com um machado gigante. Tem também os vultos, que só podem ser atingidos após serem vistos através do foco, e duas criaturas que não há nada a fazer exceto não ser visto ou fugir. Uma delas é uma entidade de fogo que o persegue em um labirinto durante um quebra-cabeça, semelhante à fuga do vácuo em Silent Hill: Downpour. Mesmo com pouca variedade, unidos, os inimigos formam um belo desafio. As batalhas são belíssimas e sempre épicas, junto de uma trilha sonora que o empurra pro ataque como um viking sedento por vingança. Mas nada se compara às batalhas contra os chefes; são só três, mas o suficiente pra valer o jogo todo. Você enfrentará Surt, o Gigante de Fogo, Valravn, o Deus da Ilusão, e Garmr, o Lobo Guardião do Inferno – que, antes da batalha, o persegue em locais sem luz. Há ainda o esperado encontro com Hela, a deusa do Reino dos Mortos.

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Batalha contra Garmr é, no mínimo, cinematográfica.

Uma causa nobre

Hellblade: Senua’s Sacrifice une a ficção da mitologia nórdica com a realidade das doenças mentais com a finalidade de abrir os olhos do mundo para um problema comum e possível de recorrer à ajuda, através de empresas sem fins lucrativos. No site oficial, os produtores alertam: “Se você foi afetado por qualquer uma das questões que viu no jogo e quer conversar com alguém ou descobrir mais, selecione seu país no menu suspenso para encontrar seu suporte local.” O Brasil não está na lista, mas há 35 países listados para se informar sobre saúde mental e procurar ajuda, seja para você, um amigo ou parente.

Causa nobre à parte, o jogo funciona em todos os aspectos. É impossível não sentir angústia ou medo de morrer durante a aventura, mesmo não existindo de fato a morte permanente. Sim, o “permadeath” não passa de um efeito psicológico para amedrontar os jogadores. Naturalmente vai ter gente que não entenderá nada ou achará o game ruim por não oferecer muitas batalhas, evolução de habilidades e etc. Mas se você leu toda a análise e compreendeu a proposta do game, ótimo! Esta obra de arte merece a sua atenção. E para não se perder na trama, o jogo oferece legendas em português. Só não esquece de, após concluir a jornada, assistir o documentário sobre o processo de criação do game, disponível na tela inicial.

selo gog

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Prós

  • Arte visual primorosa
  • Narrativa muito bem definida
  • Combate preciso e empolgante
  • Chefes absurdamente fantásticos
  • Dificuldade na medida certa

Contras

  • Em muitos momentos, procurar runas ou resolver quebra-cabeças desacelera a narrativa
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Smartfox
Smartfox
4 anos atrás

Uma pena ele não oferecer a dublagem em português. As vozes das alucinações, para quem não entende inglês fluente, não deve surtir efeito algum. Perde 50% da graça. Vi muitas pessoas realmente incomodadas com as vozes do jogo, que te desencorajam ou atrapalham nas decisões. Achei isso muito interessante, é algo que poderia ser explorado melhor em vários títulos futuros.

No mais, é realmente bom ver jogos criativos e diferentes nessa forma. O mercado precisa se reinventar, e nada melhor como uma obra igual o Hellblade para inspirar outras produtoras. Foi um projeto ousado e ambicioso… E que deu certo! Rsrs

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