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Review – Kona

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kona vitrine

No interior do Canadá, nos anos 70, em uma cidadezinha esquecida por Deus, um detetive particular veterano da Guerra da Coreia é convocado para investigar o que parece ser um simples caso de vandalismo na residência de um milionário local. Ele irá se envolver em uma complexa teia de mentiras, sordidez, segredos sombrios e vingança que vai deixar sua marca na psiquê.

Kona, da pequena desenvolvedora canadense Parabole, foi financiado através do Kickstarter, ficou um ano em Early Access no Steam e é fácil perceber por que o projeto dificilmente encontraria respaldo nas mãos de uma produtora: é um jogo de detetive com elementos sobrenaturais, uma história complexa e ambientado em uma época e região que os jogos eletrônicos não costumam frequentar. É difícil até mesmo classificá-lo dentro de um gênero, misturando em um grande mapa aberto elementos de jogos survival, com títulos de horror e adventures, sem se aprofundar exatamente na mecânica de nenhum deles, mais preocupado em contar uma história, em investigar as características e os habitantes da condenada Manastan.

Cidade Maldita

Kona 1
No início, você não tem noção do tamanho da encrenca em que está se metendo…

Kona também significa “neve” no dialeto Cree, uma das maiores nações indígenas do Canadá, que aqui desempenha um papel vital na trama e não somente no batizado do jogo. Misturando lendas primitivas em contraste com a brutalidade das relações interpessoais dos homens brancos, do choque das culturas brota a vingança da neve. A partir do momento que a nevasca surge, vai-se embora o início quase outonal do jogo e o jogador se vê envolvido em uma luta constante para se manter aquecido e são, enquanto a neve vai assumindo significados progressivamente mais assustadores. Kona não é um jogo de sustos, mas um título perturbador onde a vastidão gelada é sua única companhia.

O título da Parabole permite que o jogador vá cuidadosamente separando camadas de vidas e destinos. Há total liberdade para que você entre nas casas dos moradores de Manastan, revire seus objetos e descubra os seus mistérios. Na superfície, uma cidade pacata e típica de rudes lenhadores e caçadores tentando sobreviver no frio boreal. No final da investigação, sua perspectiva do lugar é bem diferente e muito mais complexa. Com vários locais para visitar, a jornada do detetive em direção ao pavor é lenta, mas constante.

Kona 2
A típica lojinha de beira de estrada. Ou será que não?

A pequena desenvolvedora conseguiu uma reconstituição de época caprichada, que evoca o detalhismo de um Alien Isolation ou de Stories Untold. Os cenários e os objetos que você encontra constroem uma realidade que apenas exalta a estranheza dos elementos sobrenaturais e a sensação de que algo está fora do seu lugar e alguma coisa que não pertence a esse mundo está perturbando a já conturbada vida dos habitantes da cidade. A trilha sonora, realizada pelo grupo canadense CuréLabel, dá o tom certo que o jogo precisa, mesclando folclore e uma sinistra sensação de desespero, sem chegar a incomodar, mas tampouco sem deixar a tensão cair.

Boa parte do que está acontecendo é documentado em tempo real no diário do protagonista, que reúne todas as pistas que já foram encontradas em um lugar bastante conveniente para o jogador, assim como fotografias e biografias dos principais moradores de Manastan. É interessante e tranquilizador analisar as conclusões do detetive diante do confortável calor de um fogão acesso. Um narrador onipresente pontua alguns momentos e ajuda a manter a trama caminhando, às vezes com dicas do que o jogador precisa fazer para resolver alguns enigmas.

Walking Simulator

Embora se preocupe claramente em construir um lugar palpável e uma trama adulta que envolve política, crime e forças ocultas, a Parabole deixou a jogabilidade um pouco de lado. Nada no jogo pode ser definido como desafiador, o que pode frustrar aqueles que esperavam uma experiência mais intensa, mais próxima da tradição dos survival horror. Na verdade, Kona é o que pejorativamente se resolveu chamar de walking simulator, ainda que com vários acréscimos à fórmula.

Kona 3
Ficou curioso? Eu também…

Você coleta itens, mas eles são tão abundantes no cenário que dificilmente enfrentará a carência desse ou daquele objeto. Locais que necessitam de interação apontam claramente o que é necessário para que sejam ativados, de modo que é apenas uma questão de encontrar o que falta e não deduzir o que é para ser feito, ao contrário dos adventures da velha geração. Isso leva a enigmas muito fáceis de serem superados, com uma única exceção que irá exasperar até o mais tarimbado jogador do gênero.

Dos jogos de sobrevivência, Kona pegou emprestado a preocupação com a saúde do personagem: o jogador precisa observar o nível de frio e de sanidade mental. O primeiro é mortal, mas bem fácil de administrar se o jogador tiver o mínimo de cuidado. Além disso, o jogo salva seu progresso justamente diante de fogueiras, fogões e aquecedores. A perda de Sanidade não é mortal, ainda que tenha severos impactos na performance do detetive. Como ele restaura seu juízo? Como todo bom detetive dos anos 70: bebendo ou fumando. Mas analgésicos também funcionam. Felizmente, nenhum destes itens está em falta em Manastan.

Kona 4
o.O

Para quem está interessado apenas em descortinar essa história, a jogabilidade tranquila é, na verdade, um alívio. Há outros elementos mais subjetivos com que se preocupar. Mas até esses jogadores irão encontrar um defeito significativo no jogo: seu final não é bem-resolvido. Há quem diga que o jogo é curto (fechei aqui com 9 horas, mas também esmiucei cada centímetro quadrado de Manastan e seus arredores…). O final chega na hora certa para mim, concluindo uma jornada de investigação e um rastro de tragédias. Ainda assim, a forma como o final é executado deixa um pouco a desejar.

Felizmente, a Parabole tem planos para desenvolver outros três títulos em um mesmo universo compartilhado. Segundo seus criadores, haverá outros cenários e outros protagonistas, mas vários elementos irão se repetir. O que eu encontrei em Kona é minha garantia de retorno.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Prós

  • Atmosfera envolvente
  • Trilha sonora impecável
  • Enredo adulto

Contras

  • Final abrupto
  • Mecânicas de sobrevivência frouxas
  • Puzzles inconsistentes
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