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Review – Ministry of Broadcast

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Ministry of Broadcast bg2

Sendo o projeto de estreia do estúdio tcheco homônimo, Ministry of Broadcast foi desenvolvido por uma equipe pequena de quatro desenvolvedores. Este é um jogo de plataforma 2D focado em história. Originalmente foi programado para ser lançado em simultâneo para o PC e o Nintendo Switch no início de 2020, porém devido às questões pandêmicas globais enfrentadas ao longo dos últimos meses, a versão de Switch precisou ser adiada e chegou à loja digital da Nintendo no final de abril.

Tomando de base obras como 1984, de George Orwell, e jogos como Oddworld: Abe’s Exodus e o clássico Prince of Persia (1989), o jogo não se resume apenas à ficção e traz referências de fatos históricos mundiais como o período da Guerra Fria, o regime soviético e o Muro de Berlim. Até questões mais atuais como o muro construído pelo atual presidente norte-americano Donald Trump, que separa o México dos EUA, serviram de abordagem.

O Muro

De fato, a trama de Ministry of Broadcast segue a linha de um regime autoritário que separa os habitantes de um país em duas regiões, dessa forma dividindo não apenas a população, como também famílias. O que é o caso do nosso protagonista, conhecido como “Orange” – devido a seu voluptuoso bigode e cabelos ruivos -, que foi separado de sua esposa e de seu pai.

Imagem do jogo Ministry of Broadcast.
The Big Brother is watching you.

A única maneira de se reencontrar com eles é vencendo uma competição televisiva conhecida como “The Wall Show”, onde os participantes precisam superar desafios – em sua maioria – mortais, cuja promessa ao vencedor é a liberdade para passar ao outro lado do muro. Durante a trama, acompanhamos a evolução de Orange nessa realidade distópica. Do que o ser humano é capaz para sobrepujar situações extremas e estar novamente com seus entes queridos?

A história sem dúvidas é um dos elementos principais de Ministry of Broadcast, e efetivamente ela cativa. Fiquei intrigado em saber até onde tudo aquilo levaria o personagem. O desenvolvimento dele e as decisões que ele precisa tomar ao longo do caminho são o destaque. Não é sobre o que ele conquista, mas quem ele se torna no processo.

Sem sapatos, sem problemas

O jogo é dividido em capítulos que seguem uma rotina. Cada capítulo é equivalente a um dia de gravações do reality show. O dia começa com Orange acordando pela manhã e indo para a arena, e após terminar as gravações ele retorna para fazer uma avaliação psicológica – que ocorre todos os dias – com o homem conhecido como “Arquiteto”, o idealizador do programa, e depois disso volta a seu alojamento para descansar depois do longo dia de desafios. Nada disso é tão simples quanto parece e muitas desventuras irão ocorrer no caminho.

Imagem do jogo Ministry of Broadcast.
Orange em um breve momento de clareza.

Ministry of Broadcast conta com alguns personagens recorrentes, a maioria deles servindo como figurantes durante os episódios. Mas todos eles possuem um papel fundamental ao longo da trama, de apresentarem um ponto de vista alternativo sobre as atitudes do protagonista durante o jogo. Sendo o de maior destaque Joe, que além de ser colega de quarto de Orange, também aparece em praticamente todas as fases.

O protagonista é apelidado pejorativamente pela alcunha de “shoeless” (“sem sapatos”), devido ao fato de ter suas botas favoritas roubadas no primeiro dia como participante do programa. E desde então, passa praticamente o restante do jogo à procura de um novo par, sendo esse um colecionável. É um fator de descontração dentro dessa trama com teor mais denso.

Orange é um personagem irreverente, o que o torna carismático desde o princípio. Seus comentários com tom sarcástico e por vezes sua inocência em não crer no que realmente está acontecendo tornam seus diálogos cômicos de se acompanhar. Seguindo essa linha, outro elemento interessante é a possibilidade de ouvir – ou nesse caso ler – as conversas dos NPCs com quem cruzamos durante o gameplay. Essas conversas agregam e de certa forma contextualizam a trama com acontecimentos e fatos relacionados aos personagens.

Imagem do jogo Ministry of Broadcast.
O corvo sabe tudo.

Por fim, mas não menos importante, existe Crow, um corvo sádico que aparentemente é fruto da imaginação distorcida de Orange. Tal pássaro irá aparecer repentinamente nos melhores e piores momentos, servindo como uma espécie de representação de nossa consciência. Além de servir de guia – pouco confiável – ao longo da trajetória do nosso desafortunado protagonista, seus comentários ácidos e niilistas são um atrativo à parte. Se você não odiava corvos, provavelmente passará a odiá-los.

Infelizmente, até o presente momento, a versão de Switch ainda não conta com localização para qualquer idioma além do original (inglês). Porém, no futuro patch que será lançado com correções pontuais, novos idiomas serão adicionados e é quase certo que o português seja um deles.

Proezas sem astúcia

O gameplay é simples. Basicamente é preciso correr e pular, resolver alguns puzzles de vez em quando, mas principalmente ser ágil. Orange não se envolve em combates, ou seja, é necessário sempre descobrir uma maneira de superar inimigos, seja com uma sequência de mecanismos cuidadosamente acionados ou correndo como se não houvesse amanhã – o que de fato não haverá, caso falhe. Porém o fator mais frustrante de Ministry of Broadcast é definitivamente o tempo de resposta das ações executadas. O que torna isso um problema é o fato do jogo exigir ações rápidas e em certas ocasiões muito precisas, como por exemplo, nas fases de arena, onde é necessário fugir de algum perigo ou ultrapassar uma seção em determinado tempo.

Imagem do jogo Ministry of Broadcast.
O nome dele é Frank. Ele parece legal, mas quer te devorar.

O personagem demora para executar ações simples como saltar e se agarrar ou descer de alguma plataforma sem se matar. A questão que mais me incomodou foi tentar escalar plataformas, sendo necessário obrigatoriamente virar o personagem na direção onde as mãos dele irão se agarrar à plataforma, e por mais que ela esteja literalmente acima de você, do contrário ele não agarra. Isso em momentos de pressa é simplesmente inconveniente.

Sem falar da falta de precisão ao executar ações enquanto corre, saltar e falhar no pulo, correr e tentar parar próximo a um declive e acabar caindo dele. Basicamente algo semelhante a um controle do tipo tanque, só que é um jogo 2D. Neste aspecto lembra muito o próprio Prince of Percia (1989) que serviu de inspiração, porém com a diferença de que no clássico isso foi concebido desta maneira devido às limitações de desenvolvimento da época.

Imagem do jogo Ministry of Broadcast.
Píxeis de qualidade.

O gameplay seria mais agradável e fluido se não fossem essas questões. A dica que deixo para evitar frustrações desnecessárias é tentar calcular o tempo de ação com o delay proporcionado pelo personagem, assim vai conseguir prever o momento certo de executar um pulo com precisão enquanto corre, por exemplo.

Belo e pixelado

O visual deste título lembra jogos como The Way e The Long Reach, com aspecto pixelado, porém com certa riqueza de detalhes em elementos específicos do cenário. A aparência é agradável e chega a ser característica, em geral trabalhando com tons mais acinzentados ou escuros em boa parte dos cenários, criando assim uma atmosfera opressora. A trilha sonora nem sempre parece combinar adequadamente com o que está sendo exibido em tela, mas no geral é bacana de se ouvir.

Imagem do jogo Ministry of Broadcast.
Where’s my water?

Uma questão que pode incomodar ao longo do gameplay, derivado do aspecto visual, é a falta de nitidez entre o que é interativo e o que simplesmente faz parte do cenário. Por vezes, acabei morrendo por não conseguir distinguir uma plataforma do resto do cenário, especialmente nas fases de arena onde é preciso escapar de algo e não sabemos o caminho a seguir, ou em ambientes pouco iluminados.

A versão de Switch conta com alguns bugs que podem incomodar durante a jogatina, como por exemplo essa falta de textura em alguns elementos do cenário que dificultam em identificar certos perigos e informações. O que me atrapalhou mais foi a inexistência da textura de água no jogo, sendo que esse é um dos fatores cruciais em diversas seções de fases, na solução de alguns puzzles etc.

Ministry Of Broadcast 8
Como você se sente depois de descobrir a verdade.

Um patch com correções para diversos pormenores foi prometido para a data de lançamento no Switch, porém teve de ser adiado devido às questões pandêmicas que assolam o mundo atualmente. Até a data de publicação desta análise, o patch com as correções prometidas pela desenvolvedora ainda não havia sido lançado.

Ministry of Broadcast possui uma trama intrigante, diálogos divertidos e sem dúvidas esse é seu fator de destaque, superando até mesmo seu gameplay. Definitivamente não irá agradar a todo jogador, mas um público de nicho que aprecia jogos voltados a uma narrativa. Apesar de contar com questões frustrantes – no que diz respeito principalmente ao tempo de resposta dos comandos -, se você procura por um jogo relativamente simples mas com foco em história, esta pode ser uma boa pedida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Prós

  • História e diálogos inspirados
  • Arte pixelada com detalhes únicos
  • Gameplay simples e acessível

Contras

  • Tempo de resposta dos comandos
  • Feedback visual falho em seções de plataforma
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