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Review – Reigns

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Fui apresentado a Reigns por um tweet da Devolver. Quanto estilo… gráficos simplificados em formas geométricas, trilha sonora apenas com vozes (coro), personagens caracterizados sonoramente por balbucios incognoscíveis. Tudo em unidade com o minimalismo da interface: ali eu era um rei, visitado por “cards eventos” de personagens, e que tinha que tomar decisões binárias arrastando os cards para esquerda ou para direita –  exatamente como no Tinder. Foi match à primeira vista.

Depois de muitos encontros, ainda tenho pensado muito sobre ele. Cada vez mais percebo que é um jogo importante, e que realiza feitos bonitos com grande elegância. Não é à toa que ele tá bem disputado, concorrendo ao melhor Mobile do ano no site da IGN, na lista de top 6 do Gamespot, selecionado o game mais inovativo do Google Play e também tá no TOP 10 jogos da Apple Store. Vai rolandos as fotos…

Com essa mecânica mínima você consegue comandar um reino inteiro: alimenta a população ou aumenta impostos; demove o líder do exército, casa com a rainha do reino vizinho, arranja um amante, ataca, defende, decide sobre a vida ou a morte; e joga a bolinha pro seu cachorro de estimação. Cada decisão pesa sobre 4 indicadores: Religião, Povo, Exército e Recursos. Cada escolha faz subir ou baixar os níveis: se qualquer um deles se esvazia ou enche completamente, você morre. Se Povo esvaziar, a população abandonou o reino; Povo cheio gera anarquia e a sua deposição. Com Exército vazio, seu reino é tomado por invasores; Exército cheio, golpe militar…

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Mas um jogo sagaz pós “Papers, Please” (e tantos outros) não se limitaria à quest principal; seu caminho é recheado com variações surpreendentes. Assim é possível deixar o trono para se embrenhar em masmorras, travar combates, e se envolver (ou não) nos embustes de personagens especiais – sempre usando exatamente a mesma interface mínima. Pra te ajudar a descobrir as variadas possibilidades da história, a já clássica proposição de 3 missões por vez (comum a jogos mobile de ação – como Jetpack Joyride, por exemplo) é implementada aqui para feitos narrativos, sugerindo que há mais da história pra ser desvelada. Após certa combinação de escolhas, mais cards com personagens e eventos são liberados e literalmente adicionados ao deck.

Além de bonito é inteligente… e divertido! Tem um humor sarcástico, muitas vezes negro; em geral as conquistas vêm ligadas a uma piada – às vezes contra o próprio jogador, que morrerá logo após o unlock. De qualquer forma jogá-lo é gostoso e tenso: requer sempre grande atenção, porque não é difícil morrer. Você vai morrer um tanto até entender alguns pormenores da mecânica (e vai continuar morrendo depois disso).

Tava demorando…

Depois de um tempo de convivência, você percebe que Reigns não é perfeito. A aleatoriedade acaba pesando demais sobre os eventos, que aumentam em número quando você progride; quanto mais cartas no baralho, mais difícil chegar àquela que você quer para vencer as conquistas. Ainda, as quests demandam “acertar” as combinações para serem “vencidas” – e portanto é possível que você erre as combinações e tenha que topar com os eventos novamente numa próxima vida. E de novo… O jogo parece ter sim um algoritmo que te ajuda a encontrar as quests que ainda faltam, mas podiam ter reforçado ainda mais.

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Na versão PC as conquistas propostas ficam à direita da tela

Há também uma pequena falha na interface que pode te impedir de descobrir um segredo necessário pra vencer uma das conquistas… mas bem, é segredo. Aliás, é um joguinho cheio de segredos, com 3 finais diferentes que são liberados depois de combinações quase impossíveis de descobrir. Também nesse sentido, ele prova que consegue agregar elementos comuns a outros jogos do gênero.

Spoilers filosóficos

Acho maravilhoso como Reigns escancara a mecânica de jogos de simulação e RPG, simplificando tudo a um sistema binário – que é o núcleo de qualquer jogo, por mais complexo que pareça. Reigns também expõe como vários eventos distintos (representados aqui por cards) – são programados individualmente pra serem disparados distintamente nos videogames (da mesma forma como roteiristas de cinema escrevem cada cena em um card, experimentando alternar a ordem pra montar o roteiro final). Quando o jogador realiza algum feito, desbloqueia novos eventos e possibilidades, exatamente como “cartas somadas ao deck”.

Ainda, Reigns propõe essa discussão de forma muito elegante, combinando vários elementos simbólicos:

  1. é um jogo de cartas com a temática da realeza – a mesma temática do baralho tradicional, um símbolo de “jogo”;
  2. há uma bela “rima” entre você jogar no papel de rei, e tomar enormes decisões apenas com um dedo;
  3. Tudo isso brincando de utilizar a interface básica de um aplicativo para promover encontros “reais”, em que – por uma escolha binária – você pode alterar factualmente o seu próprio destino.
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Vai dar match?

Reigns é perfeitamente coeso entre mecânica e proposta estética; expõe reflexões sobre jogos e sobre a vida; é pra levar pra casa fácil, fácil mesmo: ele tá R$0,99 por tempo limitado tanto no Google Play como na Apple Store. Na Winter Sale do Steam (PC) tá só 1 real mais caro. Se você tem Android e vive respondendo pesquisinha do Google Rewards, com certeza tem crédito pra levar de graça. Vai lá e dá um match logo.

Eu queria dar uma nota ainda melhor, mas o grau de aleatoriedade desbalanceado não permite uma experiência tão excelente quanto a reflexão proposta. Tenho certeza que Reigns terá herdeiros que aproveitarão sua mecânica de maneira ainda mais ousada, ampliando muito os caminhos abertos por este primeiro. Só tenho a agradecer ao passarinho que me fez conhecer pessoalmente o início deste reinado.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Prós

  • Bela proposta gráfica;
  • Bela resolução da mecânica;
  • Bela proposta temática;
  • Belíssima coesão entre esses três pontos, expondo ainda uma discussão sobre "o princípio básico" dos videogames.

Contras

  • alto índice de aleatoriedade dos eventos frustram um pouco a experiência;
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