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Review – Salt and Sacrifice

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Salt and Sacrifice

Quatro anos após a chegada de um expressivo e interessante souls-like, repleto de estilo próprio, a Ska Studios retorna para a nova geração de consoles com Salt and Sacrifice, um novo título da franquia neste universo dark fantasy e que não depende do primeiro título para brilhar.

Assim como seu antecessor, os desenvolvedores mantiveram os elementos metroidvania, acrescentaram muito do gênero plataforma e abusaram (até demais) das inspirações vindas das franquias da Fromsoftware. Se Salt and Sanctuary, lançado em 2018 e que tive a oportunidade de escrever o review, errou ao abusar de suas principais referências, este novo capítulo da franquia “Salt” talvez tenha derrapado e repetido os erros de manter certas amarras nos títulos que serviram como base para sua construção.

Hollow Souls ou Darkvania?

Diferente do jogo anterior, que apresentava um toque Lovecraftiano e se perdia em sua própria narrativa, em Salt and Sacrifice você acompanhará um mundo maior, com mais profundidade e motivações para guiá-lo até o fim desta história. O jogo se passa no Reino de Altarstone e o seu personagem, um criminoso capturado logo no início do jogo, tem a opção de viver como parte do grupo de Inquisidores Marcados ou ser executado.

Salt and Sacrifice
Espelho, espelho meu, leve-me para um lugar mais obscuro do que eu

Ao participar do ritual para tornar-se um Inquisidor ou uma Inquisidora, que você poderá criar e customizar ao escolher dentre oito classes diferentes e diversos crimes, que modificarão itens ou status iniciais, você chega ao Vale do Perdão para iniciar sua jornada viajando através do Portal Espelhado para caçar os temíveis Magos.

O apoio do Devoured Studios, tirando o trabalho de um homem só realizado até então por James Silva, fez com que Salt and Sacrifice trouxesse um ritmo mais frenético e com exploração vertical, tornando-se muito mais Hollow Knight e deixando de lado suas inspirações no estilo criado por Hidetaka Miyazawa.

Se a exploração das áreas ficou mais rápida e interessante, a viagem entre o hub principal, Vale do Perdão, e os diversos cenários que sofrem com as ameaças dos Magos e terríveis inimigos, acaba errando a mão ao escolher o estilo de Demon’s Souls e Dark Souls 2. As fogueiras saem e entram os pilares, que servem para viajar entre o Vale e os cenários, além de reabastecer seu personagem.

Essa decisão dos desenvolvedores faz com que para qualquer melhoria em seu personagem, você precisará retornar ao Vale do Perdão e com isso não apenas resetar toda a região, mas também voltar ao ponto inicial do cenário que desejar regressar para explorar. Por mais que existam diversos totens sagrados pelo caminho que fizer em Salt and Sacrifice, nenhum deles estará acessível ao fazer o trajeto do seu “safe place”/hub principal ao ambiente que estiver explorando.

Salt and Sacrifice
Muito farm e retornos ao Vale do Perdão para melhorar seu personagem

Por mais que o level design seja bem feito, com diversas portas para serem destravadas, escadas para chutar e alavancas para puxar, que diminuirão o tempo de exploração e encurtarão os caminhos dentro de um mesmo cenário, o fator backtracking acaba se tornando altíssimo a ponto de ser um ponto negativo.

A repetitividade acaba escalonando ainda mais quando o jogo tenta honrar seu gênero metroidvania e adiciona o uso de itens para ampliar ainda mais os cenários que você visitar: arpéu para alcançar locais mais altos, habilidade para religar roldanas que servirão de atalhos e item mágico que fará você flutuar. Adicione a falta de um mapa nesta equação e com certeza você levará mais de 10 horas apenas no primeiro cenário de Salt and Sacrifice, ficando enjoado de ter que passar dezenas de vezes pela mesma área em busca de novidades ou Magos para caçar.

Monster Souls ou Darkhunters?

Tirando o Vale do Perdão, que será sua vila/hub/safe place, você viajará por mais cinco cenários em busca dos Magos. Estes seres malignos precisam ser caçados, a partir de alguma evidência inicial, para serem derrotados e terem seus corações devorados pelo seu Inquisidor. Somente com a caçada desses Magos você conseguirá poder suficiente para atravessar certas portas, trancadas pela quantidade de corações devorados, quase como “colectatons” de jogos plataformas. Além desses seres mágicos, você também encontrará chefões ao longo de cada cenário, totalizando mais de 20 inimigos realmente desafiadores.

Salt and Sacrifice
Caça aos Monstros? Não, aos Magos! Só que sem sinalização…

Nessa mecânica toda de chefões servirem de etapas para o seu crescimento e Magos como “chaves” obrigatórias para explorar e alcançar novas regiões e cenários, a Ska Studios arriscou demais ao atrelar também o fator grind e loot aos Magos, ao melhor estilo Monster Hunter. Não servindo apenas para desbloquear seu trajeto, você precisará enfrentar repetidas vezes esses inimigos ao longo do mesmo cenário para coletar os itens derrubados por eles, retornando ao Vale do Perdão para melhorar ou construir equipamentos e acessórios bons o suficiente para não sofrer ao longo do jogo.

O problema, pelo menos para mim, não está na repetição de enfrentar várias vezes um mesmo grupo de inimigos, mas ao falharem com a falta de indicação ou sinalização de onde encontrar esses Magos. Após matá-los uma primeira vez, eles podem estar em qualquer canto dos cenários e suas posições podem (não necessariamente) serem alteradas a cada nova derrota ou viagem ao Vale do Perdão.

Detalhe importante para agravar essa situação, enquanto sofrem até 1/3 de dano em sua barra de vida, eles se movimentam pelo cenário até estabelecerem um local fixo para a “luta final”. Sabe quando era divertido jogar Monster Hunter para correr atrás de monstros imensos perseguindo-os para caçá-los, acompanhando a movimentação e comportamento do inimigo e usando o ambiente como aliado? Então, esqueceram de adicionar estes fatores em Salt and Sacrifice.

Como se não bastasse, os desenvolvedores não resolveram um problema sério do jogo anterior, fazendo com que as hitboxes dos chefões e magos mantivessem os erros do passado. Você pode ou não levar dano ao encostar em certas armas, assim como sua esquiva pode terminar no meio do inimigo e isso jogá-lo para qualquer um dos lados.

O mesmo acontece com o frame de invencibilidade que pode existir ou não, dependendo do golpe que vier em sua direção ou se for golpeado sequencialmente enquanto estiver no ar. Longe de ser perfeito, mas que pode irritar uma boa quantidade de jogadores, muitas vezes você perceberá que abandonar uma sequência de golpes leves ou a combinação com ataques mágicos ou pesados será mais seguro.

Salt and Sacrifice
Usar o arpão entre plataformas e andares será um desafio extra e desagradável

E qual o resultado dessa escolha para você conseguir evoluir? Esqueça Monster Hunter e explore o suficiente, acumulando sal para subir o nível do seu personagem, ganhando pedras que poderão ser usadas em sua árvore de habilidades, porém sem se preocupar em matar muitos magos após a primeira vez de cada um. Concentre seus esforços em aniquilar os minions summonados pelos magos para o loot necessário, pois inevitavelmente você precisará matar de três a cinco vezes um Mago ou outro, porém não perca seu tempo com eles após conseguir um set completo de equipamentos nível 2 ou 3. Cace apenas a quantidade de magos necessárias para descobrir as runas que você precisará usar no Portal Espelhado, para alcançar um novo cenário e siga assim até o fim de Salt and Sacrifice.

Salgado demais para amar

Você terá uma difícil escolha interna ao começar este jogo, pois ou você vai ser fisgado e deverá aceitar a proposta ao qual ele se propõe, quebrando certos paradigmas do estilo souls-like, ou com certeza desistirá antes de chegar em Bol-Gerahn e finalizar a Vila Cinzenta. Acredito nisto, pois foram mais de 10 horas apenas para avançar até 1/3 inicial do jogo, ao mesmo tempo em que ultrapasso as 25 horas de jogo ao aceitar a ideia do dinamismo e diversão oferecida por este título, de maneira estranha e incomum.

É gratificante acompanhar a evolução do trabalho neste segmento de títulos, cada vez mais comum no mercado de games e criando variações do trabalho da Fromsoftware. Diferente do seu ancetessor, o estilo visual da Ska Studios evoluiu entre as gerações, apresentando cenários mais bonitos e variados dentre as cinco localidades que você explorará, ao mesmo tempo em que conseguiu manter seu estilo 2D e uma direção de arte que parece ter saído de um doodle.

A variedade visual dos inimigos e acessórios em Salt and Sacrifice também não deixa nada a desejar, muito pelo contrário, pois os visuais dos chefes e magos são interessantíssimos e estão ligados diretamente ao estilo de combate, inimigos summonados por eles e o loot que você conquista.

Salt and Sacrifice
Um inimigo comum? Não! Sem esperar, mais um mago e talvez em níveis acima do seu!

Uma das gratas adições ao novo título da franquia foram as partidas cooperativas, em que você pode invocar jogadores para acompanhar a sua jornada ou até mesmo invadir outros mundos (ou ser invadido), para deixar a jogatina ainda mais agradável. Com certeza essa opção também facilitará bastante o seu progresso e pode servir como solução para chefes que insistem em consumir dezenas de tentativas até serem derrotados. No entanto, assim como os demais souls-like que existem, toda invocação de ajuda externa está atrelada a pelo menos um item que deverá ser consumido ou alguma condição como, por exemplo, não estar arcanizado (condição existente ao morrer e que bloqueia 1/3 do seu HP).

Mesmo conseguindo agradar pela sua proposta, o jogo parece que foi feito para ferrar o jogador, desde o level design punitivo à orda de inimigos que “quebram” o jogo, Salt and Sacrifice pode ser resumido em situações surreais que testarão suas habilidades e paciência. Ao mesmo tempo que chama atenção pelo visual, o plano 2D dificulta ainda mais entender o que acontece ou esquivar de certos ataques, sem contar que até mesmo o coop pode atrapalhar pelas inúmeras informações em tela acontecendo em tempo real.

Quase como um chocolate meio-amargo, o trabalho da Ska Studios possui aquele doce amargor de um jogo viciante e agradável que não demora em decepcioná-lo por diversas escolhas em todas as principais características. Isso sem contar a recente polêmica envolvendo o valor praticado entre Playstation Store e Epic Games, que demonstra que os Magos maléficos podem existir fora do Reino de Altarstone também. Vai da sua escolha aceitar ou não ser um(a) Inquisidor(a).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Prós

  • Visual único e bem cuidado
  • Mesmo com muitos defeitos, um jogo viciante
  • O combate contra inimigos comuns é agradável

Contras

  • Muitas mecânicas num único jogo
  • Hitboxes continuam com problema
  • Se perde na proposta por conta do farm e grind
  • A proposta dos Magos é chata e quebrada
  • Melhorias na sinalização ou até mesmo um mapa
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