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Review – The Walking Dead: A New Frontier

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“Mantenha o cabelo curto, Clementine”, foi a lição de Lee para a pequenina lá atrás no primeiro jogo da franquia e a cena que fecha com chave de ouro uma trilogia que amadureceu junto com a personagem e com os jogadores. Não tem como não levantar e bater palmas para a Telltale, que parece guardar para The Walking Dead um carinho todo especial.

Mas Clementine não é a personagem principal deste terceiro jogo, uma decisão que se mostra extremamente sábia logo depois da menina conduzir o segundo título nas costas. Cabe ao jogador controlar desta vez o inédito Javier, ou Javi, de ascendência latina, na terrível missão de preservar sua família. Se a temática do primeiro jogo era a civilidade e o que devemos fazer para salvaguardar o que temos de mais humano mesmo em situações de crise e o segundo jogo falava de sobrevivência e o que temos de abdicar ou não em prol dela, em A New Frontier a Telltale Games foca nos laços familiares, mas sem perder de vista os temas anteriores.

The Walking Dead
Uma família muito unida, mas também muito ouriçada…

Anteriormente em The Walking Dead…

Se todas as temporadas que antecederam essa tinham uma estrutura de série de TV (inclusive no termo “temporada”), desta vez a desenvolvedora percebe que pode extrapolar os limites tradicionais de um jogo e fazer um excelente uso de uma ferramenta comum à televisão: flashbacks. Já no primeiro deles, através de cenas do passado, vemos com imenso choque a tragédia se agigantar diante da família de Javi logo na abertura. É impossível não sentir a agonia: já sabemos o que está por vir, mas o jogo nos força a passar por aquilo, a entender a gênese que despedaçou essas pessoas, a testemunhar uma vez mais o começo do apocalipse zumbi. Sirenes tocam no horizonte, a civilização tomba.

Ainda que Javi e seus dilemas ocupem a posição central da trama, Clementine aparece como uma ladra de cenas, uma coadjuvante muito bem-vinda, que também ganha flashbacks que fecham pontas soltas da temporada anterior e nos mostram os caminhos que levaram nossa heroína a mudar tanto. Conhecemos diferentes significados de família com ela e as pessoas que cruzam seu caminho. Que pena que a Telltale Games não utilizou esse recurso antes, quando aprendemos sobre o passado de Lee através somente de pistas soltas e nada mais.

The Walking Dead
Mãe só tem uma!

Embora Javi tenha nossa simpatia, fica claro que a saga pertence à Clementine e a Telltale demonstra uma sensibilidade ímpar ao mostrar a transição da menininha indefesa do jogo original para uma guerreira pré-adolescente. Sua puberdade chega e o assunto é tratado com a delicadeza que merece, é como ver uma filha que nunca tivemos crescendo diante de nossos olhos, algo raro, talvez inédito, nos jogos eletrônicos.

O uso de flashbacks não é a única vantagem que A New Frontier tem sobre a temporada anterior. O ritmo da narrativa aqui é muito mais regular, saltando de um desafio para outro de uma forma mais orgânica e sem deixar a adrenalina cair em nenhum momento, embora não seja tão sufocante quanto o primeiro jogo. As decisões tomadas pelo jogador parecem carregar mais peso, contudo, alguns jogadores reclamam que nem todos os caminhos abertos são tão interessantes quanto os outros. A experiência pode variar e a minha, felizmente, foi a melhor possível, consideradas as circunstâncias.

The Walking Dead
Começou a Steam Sale!

“Vamos conversar”

Talvez por ser o terceiro título da franquia, as decisões também parecem mais amarradas. Ou a fórmula já está muito clara agora após tantos jogos. Em dado momento da trama, você é literalmente forçado a escolher qual personagem irá morrer em uma execução. Seu personagem reclama, categoricamente falando que não há necessidade desses “estúpidos jogos”, quase uma quebra da quarta parede, mas o A New Frontier continua assim mesmo e você terá que tomar a decisão e conviver com os resultados dela. Faltou sutileza nessa e em outras partes.

Por exemplo, e agora é completamente hipotético, para uma dada situação você pode escolher entre:

a) “Vai se ferrar!”

b) “Enfia isso onde o sol não bate”

c) “Vamos conversar”

d) Arremessa a granada.

Você escolhe “vamos conversar” e ainda assim o jogo te empurra com uma mão pesada para uma conflagração que terminará com dois cadáveres no chão e todo mundo te odiando.

The Walking Dead
Aperte Q para “Quebrar Crânio”

Mas esses eventos são o núcleo de um título da série, amando ou odiando. As partes de “jogo”, onde a interface literalmente lhe diz quais botões para apertar no momento certo, são pouco mais que distrações, elementos de jogabilidade que estão ali apenas para bater ponto e a franquia não ser classificada como quadrinhos interativos. Os “puzzles” com os quais a série iniciou chegam nessa terceira temporada completamente despidos de desafio, na linha de “pegue esse objeto a sua esquerda, agora ative ele nesse ponto na sua direita” e só.

Em uma situação normal, esses enigmas e os quicktime events deveriam estar ali para aumentar a sensação de imersão, de esforço físico em momentos de tensão, mas passam apenas tédio. Falhar em um deles é somente um atalho para uma tela rápida de morte e uma recarga quase instantânea para uma nova tentativa. Falta-lhes qualquer peso.

To Be Continued…

Entretanto, julgar um título da série por essas decisões de jogabilidade é ignorar que a verdadeira dificuldade, a verdadeira jogabilidade, se podemos dizer, está erguida em torno da mecânica das decisões. Nesse ponto sim, uma escolha errada pode ter consequências devastadoras, algumas que só serão sentidas horas depois. Mas sem o alívio de um “game over” e uma recarga: você será obrigado a seguir em frente com sua consciência e, talvez, um personagem cativante irrevogavelmente removido da trama. Para essa jogabilidade, não há prática ou habilidade, apenas esperança.

The Walking Dead
Não, o jogo não é uma “passagem de bastão”!

E, pela primeira vez na franquia, pelo menos para mim, o jogo termina com esperança. Suas decisões poderão levar a resultados diferentes e essa jornada será somente sua, aquém do objetivo desse texto. Sei que existem finais inferiores, até mesmo apressados, e a Telltale não conseguiu entregar o mesmo nível para todos. Mas, minha Clementine, a família que escolhi proteger, as escolhas que fiz, abriram mesmo um rasgo de esperança.

A história de Clementine continua…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Prós

  • Narrativa bem-estruturada e com o ritmo equilibrado
  • Escolhas que oferecem experiências diferenciadas para jogadores
  • Honra as temporadas anteriores e evolui seu personagem principal para uma próxima jornada

Contras

  • Mecânicas de jogabilidade cada vez piores
  • Nem todos os múltiplos caminhos oferecidos aos jogadores podem ser interessantes
  • Mão pesada no resultado de algumas decisões
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